Um captador no encontro dos doadores

wingsforumSemana passada participei, no México, do WingsForum 2017, um encontro que acontece a cada três anos e reúne as principais organizações que promovem a filantropia no mundo, incluindo grandes fundações internacionais, associações de doadores e organizações de apoio ao setor.

Do Brasil estiveram presentes 18 participantes, representando a própria Wings, realizadora do evento e que tem sede em São Paulo, e outras organizações como o GIFE, IDIS, ICOM, Fundo Brasil dos Direitos Humanos, etc. No total, foram 350 presentes no hotel Hilton Reforma, na cidade do México.

E eu estava lá também – um captador, que representa a Associação Brasileira dos Captadores de Recursos, e que supostamente está “do lado de lá da mesa”, do lado das organizações que são financiadas com os recursos desses mesmos doadores.

Pois bem, eu estava lá, e fui convidado para falar sobre colaboração e impacto na filantropia, e apresentei um exemplo que tinha tudo a ver com eles, e tudo a ver com a gente também: o Dia de Doar.

Para quem não conhece ainda, o Dia de Doar é uma campanha mundial, criada em 2012 nos Estados Unidos com o nome #GivingTuesday, e que tem como objetivo promover a solidariedade e incentivar as doações por todos. Aqui no Brasil, a ABCR faz parte da equipe que promove a campanha.

Do nosso ponto de vista, do ponto de vista dos captadores, promover a doação no Brasil é importante, porque não a doação como algo que faz parte da nossa cultura, do nosso dia-a-dia. Por isso, se queremos promover o desenvolvimento da captação de recursos, e da capacidade das organizações se financiarem com o apoio verdadeiro de quem acredita nelas e compartilha com elas as mesmas causas, temos que promover também a doação.

Curiosamente, lá no México, doação foi um dos temas menos abordados no evento.

É interessante observar a preocupação dos grandes atores mundiais da filantropia em temas como a justiça social e o desenvolvimento humano. Várias das palestras e sessões abordavam esses conteúdos, inclusive com forte referência aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (SDGs, na sigla em inglês).

Dos temas das quatro sessões paralelas que eram realizadas ao mesmo tempo, somente um abordava tema diretamente ligado ao desenvolvimento do setor – “Infra-estrutura mais forte” – enquanto os outros três era mais políticos: “Abordagens Emergentes”, “Assuntos Globais”, e “Políticas Públicas e Participação”.

Participantes e palestrantes do evento vieram de todos os continentes do mundo, com forte presença europeia e também da África – aliás, o próximo WingsForum, em 2020, será no Quênia.

Um dos grandes ativos do evento foi a possibilidade de troca entre os participantes, de networking. Mesmo no meu caso, que supostamente não fazia parte “daquele mundo”, foi possível fazer um grande número de contatos e conhecer muita gente interessante, porque a estrutura do evento favorecia isso. O almoço era sempre realizado em grandes mesas, onde se tinha oportunidade de sentar e conversar com pessoas diferentes, e foram realizados vários momentos sociais, como jantar e coquetel, que também favoreceram a interação entre os participantes.

Voltei do México bastante instigado a seguir nesse desafio que temos de promover a cultura da filantropia no Brasil. Talvez eu não tenha aprendido tanto pelas palestras lá, e muitas delas acabaram se tornando mais debate dentre os convidados e não foram tão produtivas, mas definitivamente aproveitei a viagem para fazer novos contatos e conhecer novas experiências.

Também trago “na bagagem” temas que são importantes começarmos a considerar dentre os captadores. Uma vez que somos responsáveis por viabilizar os recursos que vão garantir que as organizações consigam cumprir sua missão, somos também agentes de transformação. Nos nossos eventos, nos nossos fóruns e momentos de encontro, não devemos abordar apenas técnicas e práticas de captação, mas também reforçar o debate sobre o papel social da profissão, sua capacidade de transformar a sociedade e garantir que haja avanço verdadeiro na causas defendidas por milhões de brasileiros.

Ter participado do WingsForum 2017 foi sem dúvida alguma uma oportunidade única. Aprendi muito, fiz novas amizades e contatos, e conheci novos pontos de vista. E, claro, promovi a captação de recursos e o Dia de Doar. E tudo isso valeu muito a pena.

 

João Paulo Vergueiro, diretor executivo da ABCR e professor da FECAP. (abcr@captadores.org.br)

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6 thoughts on “Um captador no encontro dos doadores

  • Olá João, obrigada pelo seu relato. Gostaria de saber quais os temas relevantes que você “trouxe na bagagem”. O que está na pauta do dia das preocupações mundias no mundo da filantropia? Quais as áreas e temas prioritários para financiamento?
    Poderia detalhar mais estas informações?
    Ficaremos gratos,
    Att. Maria Emilia

    • Oi MAria Emilia, tudo bem? Os principais temas debatidos lá foram como a filantropia pode contribuir para a justiça social, em particular em um momento em que o mundo reforça muito os extremos políticos e religiosos. Também se falou da participação da filantropia na promoção dos objetivos do desenvolvimento sustentável e no avanço de políticas públicas. Por fim, de forma menos abrangente, abordou-se também negócios sociais e colaboração na filantropia. Um abraço! João Paulo (ABCR)

    • OI! Olha, não senti abertura para isso, pelo menos não no sentido de grandes investimentos em novas doações. Falou-se muito da importância da cooperação com as organizações locais, ao invés da imposição de uma visão de cima para baixo, mas não se apresentaram novas iniciativas.

  • Olá, João! Sou grata a Deus pela sua vida, por poder ir tão longe e por compartilhar conosco o seu momento.
    Vc percebeu probabilidade de expansão em doação a alguma causa específica? (meio ambiente, criança e adolescente, cancer… etc…)
    Um abraço, continue plantando!

    • Oi Carla, realmente não identifique nenhuma causa específica, mas há muito interessante no tema dos objetivos do desenvolvimento sustentável, o que pode abrir uma porta para apoio aí.

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