“Grande parte da nossa vida mental é inconsciente. A ciência do cérebro está em todos os aspectos da vida intelectual: filosofia, psicologia, música, nas tomadas de decisões, nas decisões econômicas”. A declaração do neurocientista austríaco Erick Kandel mostra como a neurociência está presente no cotidiano e que a compreensão de algumas das suas descobertas pode ser utilizada a nosso favor.
Talvez a aplicação mais popular dos conhecimentos da área seja feita pelo marketing, mas é possível usar fatos sobre o funcionamento do cérebro para aumentar o engajamento social.
“Quando a gente fala de como nosso cérebro funciona, uma das coisas mais relevantes é nossa conexão com outras pessoas. Isso é muito forte e é um aspecto evolutivo. Conviver em grupo traz muitos benefícios e muitos desafios. Quando falamos em engajamento social, falamos de grupos, pessoas se unindo em torno de uma causa e isso é essencial para nós porque nos fortalecemos em grupos. O engajamento em uma causa contribui para nossa felicidade e bem-estar”, diz Giuliana Preziosi, sócia na Conexão Trabalho Consultoria e pós-graduada em Neurociência e Comportamento pela PUCRS.
Ela elencou cinco dados apresentados por estudos de neurociência que podem ajudar a aumentar a cultura da doação. Confira:
Somos seres emocionais
As emoções não apenas fazem parte dos seres humanos, como também os movem. Elas possuem correlatos neurais específicos no cérebro e existem regiões cerebrais associadas a diferentes emoções, como o córtex pré-frontal, amígdala e o sistema límbico. Essas estruturas desempenham um papel crucial na geração e no processamento das emoções.
Existe um mito sobre a dualidade entre razão e emoção que foi originado na filosofia grega e, embora o ser humano tenha a tendência de querer distinguir entre razão e emoção, na prática isso não existe porque a emoção faz parte do processo de raciocínio. As emoções determinam nossos pensamentos, ações e reações e, para aumentar o engajamento social, é necessário refletir sobre os sentimentos despertados pela comunicação de uma causa.
“Se quero engajar alguém, tenho que despertar uma emoção que cause algo. Por exemplo: campanhas de captação de recursos como as de Médicos sem Fronteiras geram um incômodo para que as pessoas se sensibilizem e doem. Quando você monta uma comunicação ou estrutura um diálogo, é possível fazer isso de uma forma mais neutra, cada organização terá sua estratégia de acordo com os valores que quer passar”, explica Giuliana.
“É importante trazer um pouco mais de valor, revelar porque a organização está fazendo isso, quais os problemas do mundo que quer ajudar a resolver e o que faz de diferente nisso. É por aí que se consegue acessar mais a emoção”, acrescenta.
Somos manipuláveis
O cérebro humano tem a capacidade de automatizar muitas decisões. O psicólogo Daniel Kahneman classifica o processo de tomada de decisão em dois sistemas: o sistema 1 é o automático, intuitivo, rápido e impulsivo. Já o sistema 2 exige raciocínio, reflexão, antes de chegar a uma resposta. Enquanto um toma decisões automáticas baseadas em crenças, valores e experiências, o outro realiza julgamentos baseados em impressões, o que faz com que as pessoas possam ser manipuladas de acordo com a maneira com que recebem informações.
Esses “atalhos” utilizados pelo cérebro para solucionar problemas e economizar energia são chamados de heurísticas. A heurística do afeto faz com que nossas simpatias e antipatias determinem nossas crenças acerca do mundo. A heurística da disponibilidade considera a facilidade com que as ocorrências vêm à nossa mente. Além disso, as pessoas desenvolvem vieses inconscientes que podem alimentar preconceitos.
Nesse sentido, Giuliana propõe que as organizações utilizem essas informações para motivar pessoas, exercitando muito a escuta do outro, para perceber seu ponto de vista e usar argumentos que o mobilizem.
“Quando fazemos qualquer ação de captação, como um telefonema ou conversar com alguém na rua, precisamos saber ouvir mais. Quando mostramos que estamos ouvindo alguém, a pessoa sente e isso é muito significativo para o engajamento. Vejo muitos casos de discursos robotizados que perdem a oportunidade de engajar porque não escutam o outro. Se escuto a pessoa de verdade, um vínculo é gerado, ela se sente ouvida e há uma abertura para convidá-la a contribuir. A escuta é algo valioso, mas as pessoas se esquecem dela”, aponta.
Empatia
A empatia é muito citada quando nos referimos a engajamento social, mas nem sempre é positiva. Isso acontece devido aos neurônios-espelho, que são ativados quando observamos uma ação e estão associados à capacidade de imitação, ao aprendizado de novas habilidades e à interpretação da intenção dos outros.
As emoções também podem ser espelhadas: conseguimos criar uma conexão com outras pessoas chorando, por exemplo, por causa da empatia. Essa capacidade pode ser dividida em três tipos: empatia cognitiva, que é quando compreendemos a perspectiva do outro, empatia emocional, quando sabemos o que o outro sente, e a preocupação empática, que é quando quando nos importamos com as pessoas de maneira mais abrangente.
Como a empatia se relaciona diretamente a uma conexão com valores de outras pessoas, esses valores podem ser bons ou ruins, pois a empatia não significa moralidade. Há situações em que o espelhamento pode ser usado para ações cruéis ou para disseminar notícias falsas.
Segundo Giuliana, a empatia se apoia em processos de colaboração, cooperação e solidariedade, mas também é frágil e se desfaz em contextos de conflitos intergrupais. Mesmo assim, ela é fundamental para provocar impacto social, por isso, as organizações devem pensar em quais valores e sentidos estão por trás das suas ideias para que as pessoas compartilhem o mesmo sentimento de cooperação.
Pausas são importantes
Descansar é extremamente importante para aumentar a produtividade. Nesses momentos de pausa, o cérebro fica na Rede de Modo Padrão (Default Mode Network). É um conjunto de regiões do cérebro que interagem e possuem atividades correlacionadas entre si, mas se diferem de outras redes cerebrais. Essa rede fica ativa durante o repouso passivo e a divagação mental, ou seja, quando o corpo está exercendo atividades mecânicas do dia-a-dia, que não necessitam de atenção.
O pesquisador Matthew Lieberman afirma que quando a Rede de Modo Padrão está ativa significa que as pessoas estão interessadas no mundo social, como se houvesse um termômetro da socialização. Isso corrobora o fato de que somos seres sociais e precisamos criar conexões com outras pessoas.
A valorização do descanso da equipe, incluindo captadores de recursos, assegura a qualidade do trabalho das organizações sociais. Assim como as metas são essenciais, também é necessário estabelecer intervalos entre elas para não cair em um ciclo exaustivo que só demanda produtividade. Outra dica é propiciar momentos de interação entre as pessoas durante esses intervalos.
Bem-estar e felicidade
Uma das maiores buscas da humanidade é a felicidade, mas ela está mais próxima do que as pessoas imaginam. No livro “The how of Happiness”, Sonja Lyubomirsky diz que 50% da nossa felicidade é genética e isso faz parte da nossa bioquímica, 10% são fruto de circunstâncias da vida, como renda, grau de escolaridade e de vulnerabilidade social, entre outros fatores e 40% se originam em nossos pensamentos e atitudes. Isso significa que 40% da felicidade está sob nosso controle.
A química cerebral possui a capacidade de criar um cenário excelente para que isso aconteça. Qualquer interação social positiva estimula a oxitocina ou ocitocina, um neuroquímico conhecido como hormônio do amor que aumenta nossa empatia e permite conexões emocionais com outras pessoas, além de diminuir o estresse fisiológico.
Ela também estimula a liberação da dopamina e da serotonina, neurotransmissores que aumentam a sensação de bem-estar e combatem quadros depressivos. Para Paul Zak, neuroeconomista e fundador desse campo de estudos, a ocitocina é o substrato biológico do amor e da reciprocidade, pois intensifica os comportamentos pró-sociais, o que inclui a generosidade, confiabilidade e caridade.
Por isso, a felicidade pode ser buscada em relacionamentos e na generosidade. Estudos científicos revelam que as doações ativam regiões cerebrais associadas ao prazer, à conexão social e à confiança. Isso libera ocitocina e inclui a prática do voluntariado, o cultivo da gratidão e o auxílio ao próximo.
As pessoas buscam ter uma jornada com propósito e desejam que suas contribuições causem impactos positivos. Convidá-las para doar tempo, recursos ou habilidades para uma instituição social alimenta tudo isso e faz bem para a saúde.
As dicas de Giuliana foram compartilhadas na plataforma Plurale no Festival ABCR
Já que a coletividade é uma das principais características da humanidade, que tal aproveitar o Dia de Doar para estimular a generosidade entre as pessoas?
Texto publicado pela Captamos, editoria da ABCR de conteúdos aprofundados sobre mobilização de recursos para causas.