Por Ana Carolina Galvão
Assistente Social, especialista em Instrumentalidade do Serviço Social, idealizadora da assessoria e consultoria Ubuntu Direitos Humanos e líder do GT Captação de Recursos e Assistência Social da ABCR. É aluna do Programa de Pós-Graduação em Participação Social e Desenvolvimento Territorial da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
O Nordeste concentra mais de um quarto da população brasileira, mas recebe uma fatia muito menor dos investimentos sociais privados e dos grandes fundos estruturantes. Isso não ocorre porque faltam projetos relevantes, inovadores ou transformadores. O que falta, na verdade, é um sistema de financiamento que enxergue o território para além dos estigmas e organizações preparadas para dialogar com esse sistema sem renunciar à própria identidade.
Dados do Censo GIFE (2022) indicam que mais de 60% do investimento social privado no Brasil concentra-se nas regiões Sudeste e Sul, enquanto o Nordeste, apesar de sua relevância demográfica e social, recebe parcela significativamente menor desses recursos.
Quem conhece o chão do Nordeste sabe: o território é potente. Associações comunitárias, coletivos culturais, cooperativas, movimentos populares e organizações da sociedade civil sustentam, há décadas, políticas de cuidado, segurança alimentar, cultura, esporte, educação popular e defesa de direitos onde o Estado, muitas vezes, não chega, ou chega de forma insuficiente. Isso não é improviso: é capital social, é inteligência coletiva, é tecnologia social em funcionamento.
Ainda assim, essas organizações continuam captando menos. Por quê?
Porque, no jogo do financiamento, impacto que não é traduzido vira impacto invisível. Muitas iniciativas nordestinas transformam realidades com poucos recursos, mas não conseguem converter essas transformações em indicadores, narrativas e linguagens compreensíveis para financiadores nacionais e internacionais.
Falar de captação de recursos no Nordeste exige, antes de tudo, romper com uma narrativa confortável, e equivocada, que insiste em associar a região à escassez, à fragilidade institucional ou à falta de capacidade técnica. Os critérios de avaliação, os formulários, os relatórios e os marcos de mensuração foram pensados longe dali, quase sempre a partir de realidades do Sul-Sudeste ou do Norte Global.
As informações aqui apresentadas dialogam com dados produzidos a partir de um estudo exploratório inicial, de natureza qualitativa, em desenvolvimento no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Participação Social e Desenvolvimento Territorial da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
A primeira fase da pesquisa, realizada no segundo semestre de 2025, envolveu a participação de 336 organizações da sociedade civil, distribuídas em nove estados do Nordeste brasileiro.
Do total de organizações analisadas, 63% possuem atuação prioritariamente local ou territorial, 26% atuam em escala estadual ou regional, e apenas 11% declararam executar projetos com alcance nacional ou internacional, ainda que mantenham forte enraizamento comunitário.
Os dados primários revelaram que 79% dos participantes percebem forte concentração regional dos recursos no eixo Sul-Sudeste, e 67% relataram já ter desistido de processos de captação nacional ou internacional em razão da complexidade técnica dos editais, das exigências documentais excessivas ou da inadequação dos critérios de avaliação à realidade territorial.
O problema se agrava quando se tenta importar, sem mediação, modelos prontos de captação. Ao fazer isso, organizações acabam se afastando do território, empobrecendo suas narrativas e, em muitos casos, perdendo legitimidade comunitária. Copiar fórmulas não funciona, porque o Nordeste não é um laboratório vazio: é um território vivo, com história, cultura e formas próprias de organização.
Captar recursos, nesse contexto, não é apenas buscar dinheiro. É traduzir o território. É explicar, para quem está fora, que aquela experiência local dialoga, sim, com agendas globais como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a justiça climática, os direitos humanos e a economia solidária, sem reduzir a complexidade do lugar nem recorrer à estetização da pobreza.
E aqui entra um ponto crucial: a narrativa importa. Não basta dizer que o projeto é importante; é preciso mostrar como ele transforma vidas, fortalece vínculos, gera renda e amplia direitos. Narrativas fortes não escondem os problemas, mas também não reforçam estigmas. Elas colocam o território como protagonista, não como cenário de carência. Outro erro recorrente é tratar a captação local, nacional e internacional como mundos isolados. Organizações mais resilientes fazem exatamente o oposto: articulam escalas. A base comunitária gera legitimidade; o financiamento nacional estrutura a instituição; e o acesso a recursos internacionais amplia impacto e sustentabilidade. Quando essas dimensões conversam, o território deixa de ser obstáculo e passa a ser diferencial.
Há sinais claros de mudança. O crescimento do crowdfunding, das parcerias híbridas, do uso estratégico de dados e da aproximação com universidades e empresas mostra que o financiamento social está mudando. E isso abre uma janela histórica para o Nordeste. Mas essa janela só será atravessada se houver planejamento, governança mínima, comunicação estratégica e, sobretudo, consciência do próprio valor.
O Nordeste não precisa pedir licença para ocupar o debate global sobre desenvolvimento sustentável. Ele já está fazendo isso, na prática, todos os dias. O que falta é organização estratégica para que o financiamento deixe de ser episódico e passe a ser estrutural.
Quando o território se reconhece como valor, e aprende a se traduzir sem se descaracterizar, a captação deixa de ser sobrevivência. Passa a ser projeto político de desenvolvimento.
Essa é a virada de chave. E ela já começou.
REFERÊNCIAS
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