Por Flavia Lang e Eduardo Massa*
Cada conversa importa. Cada interação tem o potencial de transformar o mundo. E nunca sentimos isso tão intensamente quanto na semana passada, durante o 2º Congresso Internacional de F2F, realizado em Viena. Estar entre mais de 300 captadores de recursos de mais de 30 países, todos impulsionados pela mesma paixão, a conexão humana, foi uma experiência poderosa e transformadora.
Foram três dias vibrantes de trocas profundas, reencontros emocionantes, novas conexões e muitos aprendizados. Discutimos desde as tendências globais e inovações digitais até os desafios éticos e a importância do cultivo de doadores. Descobrimos, inclusive, que o F2F tem raízes muito mais antigas do que imaginávamos. Nasceu em Manchester, em 1912, com a YMCA, e não em Viena como muitos pensavam!
Sim! Foi impressionante saber que aquela primeira campanha já usava elementos que ainda usamos: equipes com nomes próprios como “Sharpshooters” e “Pioneers”, formulários de doação e metas públicas exibidas em relógios pelas cidades. Um verdadeiro legado que mostra como essa forma de captação já nasceu inovadora.
Outro ponto que foi destaque é que o sucesso do F2F está menos em “fazer mais” e muito mais em “fazer melhor”. Equipes bem treinadas, dados nas mãos e foco total na experiência do doador fazem toda a diferença. O futuro da captação está na qualidade da interação.




Tivemos também uma conversa intensa – e um tanto polêmica – sobre doações únicas (one-time). O consenso? Pode ser uma porta de entrada valiosa, especialmente para organizações menores. Desde que haja disciplina na coleta de dados e estratégias claras para cultivar e converter esses doadores em apoiadores recorrentes. É um modelo viável, desde que tratado com seriedade. Também pode ser uma forma de geração de leads para serem trabalhados e transformados em recorrentes.
Entre os muitos exemplos apresentados no congresso, vimos como o F2F pode se adaptar a diferentes contextos e públicos. Em países como a Malásia, a introdução de mascotes para atrair atenção em shopping centers ajudou a rejuvenescer o público e aumentar a taxa de retenção. Na Itália, uma campanha vinculada ao personagem infantil Paddington gerou um ticket médio superior e maior engajamento familiar. E na Indonésia, equipes passaram a operar em aeroportos 24 horas por dia, com resultados impressionantes de qualidade e retenção. Iniciativas assim demonstram que criatividade, estratégia e adaptação podem ampliar horizontes e alcançar novos doadores.
E falando em conexão, um lembrete poderoso ecoou entre nós: se quatro minutos de contato visual profundo criam laços entre pessoas, imagine o impacto de dez minutos de uma abordagem F2F apaixonada! Fundraisers motivados não apenas batem metas – eles criam momentos inesquecíveis.
É isso. A base da captação F2F não é a tecnologia, é a emoção, a empatia e a presença. Ferramentas vêm depois. Nada substitui o brilho nos olhos de quem acredita no que está dizendo.
Claro que a tecnologia também tem seu lugar. O mercado global de F2F continua crescendo, impulsionado por inovação. Um exemplo surpreendente foi o caso do programa Draw for Hope, da ChildFund USA com a ZenterPrize: uma campanha de doações recorrentes associada a sorteios. Soa estranho, mas funcionou, com resultados no aumento da aquisição e redução de cancelamentos. Criatividade com propósito.
Do ponto de vista tecnológico, vimos também o avanço de soluções que tornam a doação rápida e sem atrito: QR Codes, carteiras digitais, NFC e até PIX adaptados ao contexto internacional. Essas ferramentas facilitam a vida do doador e aumentam as taxas de conversão no momento da abordagem.
Falando em futuro, algumas tendências nos chamaram a atenção:
• Diversificação nas ofertas: doações únicas, regulares, simbólicas e por assinatura.
• Fundraisers mais analíticos, usando dados em tempo real para personalizar abordagens.
• Pagamentos rápidos e sem fricção, como QR Code, NFC e PIX.
• Experiências ricas, com storytelling, personalização e tecnologia bem dosadas.
• Integração entre áreas, quebrando os silos entre captação, marketing, dados e atendimento.
Também vale destacar uma das apresentações mais emocionantes do congresso, que contou o case da ONG Aldeias Infantis, em Portugal. Quando a equipe estava desmotivada e os resultados abaixo do esperado, a liderança tomou uma atitude: parou tudo para conversar com os captadores sobre propósito. Reconectou o time com a razão pela qual estavam nas ruas. Resultado? Recorde de novos doadores e uma energia coletiva completamente renovada. Um lembrete de que a liderança que inspira é aquela que escuta, confia e valoriza a paixão.
Por fim, o congresso reforçou a ideia de que a inovação no F2F não está só na tecnologia, mas sim em como usamos a emoção, a empatia e a criatividade para criar experiências verdadeiramente memoráveis.
Que esses exemplos e inspirações possam ser incorporados à nossa prática e também estejam presentes no Festival ABCR, em junho, quando teremos a chance de viver, no Brasil, a mesma energia transformadora que experimentamos em Viena.
Voltamos para casa inspirados, com novas ideias, novos contatos e um senso de propósito renovado. Esse congresso foi um lembrete poderoso do que nos move: a crença de que cada conversa pode, sim, mudar o mundo.
E que a paixão por aquilo que fazemos é contagiante. Que venham os próximos encontros. Estamos prontos para continuar essa conversa.
Flavia Lang – Presidente do Conselho da ABCR e CEO da Tools4Change
Eduardo Massa – Diretor de Captação de Recursos e Parcerias Estratégicas da Trackmob