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Captação voluntária: bazar mantido com voluntariado arrecada R$ 600 mil por ano 

À frente do voluntariado do Bazar Heleninha, em São Paulo, Neide Fontes de Oliveira coordena uma rede de doações, parcerias e vendas que representa cerca de um terço da arrecadação do Instituto Heleninha. 

Neide Fontes de Oliveira não se apresenta como captadora profissional. Mas aos 77 anos, ela coordena o voluntariado do Bazar Heleninha, em São Paulo, e faz parte de uma engrenagem que depende de pedidos, conversas, parcerias, controle de estoque, metas e relacionamento permanente com doadores e compradores. Sua rotina mostra como a captação de recursos também pode ser feita por pessoas voluntárias e com profissionalismo, quando tempo, rede de contatos e compromisso são colocados a serviço de uma causa.

O bazar é uma das principais fontes de receita do Instituto Heleninha, organização que oferece transporte gratuito e apoio a crianças e adolescentes em tratamento de câncer. Segundo Neide, a iniciativa representa hoje cerca de um terço da arrecadação geral da instituição. Em 2025, as vendas chegaram à faixa dos R$ 600 mil, aproximadamente R$ 50 mil por mês. “O atendimento a uma criança custa R$ 2.500 ao mês para o Instituto, porque tem gasolina, motorista, desgaste do automóvel. Então o bazar consegue realmente suprir bem”. O espaço vende roupas, sapatos, acessórios, brinquedos, livros, utensílios domésticos, eletrodomésticos, objetos de decoração, itens de papelaria, cama, mesa e banho. Tudo chega por doação. 

Uma vida ligada ao voluntariado 

A trajetória de Neide no voluntariado começou antes do Instituto Heleninha. Ela cresceu vendo avós e pais envolvidos em ações de apoio a outras pessoas. O avô montava um presépio com peças trazidas da Itália e deixava nele um prato para doações, usadas depois para comprar itens de Natal para famílias sem recursos. O pai atuava na Sociedade de São Vicente de Paulo. A mãe ajudava uma associação restaurando bonecas para venda ou rifa. “A vida inteira eu via esse tipo de trabalho dentro da minha casa. Então foi muito natural seguir fazendo alguma coisa”.

No Instituto Heleninha, Neide atua desde a fundação, em 1999. Conhecia de perto os fundadores Tatiana Piccardi e Luiz Maurício de Andrade Silva, pais de Helena, cuja história deu origem à organização. O bazar surgiu alguns anos depois, quando a instituição começou a buscar uma fonte de renda mais estável. “Um tempinho depois a gente começou a pensar numa fonte de renda que fosse um pouco mais segura, estável, e aí se falou no bazar. Começamos com uma funcionária e depois eu falei: ‘A gente podia tocar só com voluntários’. Porque eu fiz trabalho voluntário minha vida toda, em vários lugares”.

A captação no dia a dia do bazar 

A partir dali, o bazar deixou de depender de uma funcionária e passou a ser conduzido por uma equipe voluntária. O que começou de forma pequena se transformou em uma operação permanente de captação. “Nós começamos esse trabalho dessa forma, bem pequenininhas, Quando faturava R$ 100 na semana, era uma festa”.

Hoje, a rotina exige atenção diária. Para vender, o bazar precisa estar abastecido. Para estar abastecido, precisa receber doações com frequência. Quando faltam roupas masculinas, brinquedos ou itens de casa, Neide aciona os grupos internos, fala com voluntárias, mobiliza conhecidos e pede apoio à comunicação do instituto. “Aqui no Bazar, a gente faz campanha todos os dias, porque nós precisamos sempre de recursos para continuar funcionando”, diz Neide.

Clientes que também doam

A captação passa pelo relacionamento com quem compra. O público do Bazar Heleninha é formado principalmente por trabalhadores e moradores do entorno do Brooklin, em São Paulo, além de clientes antigos que acompanham o espaço há anos. Muitos não apenas compram, mas também voltam para doar. “Tem gente que vem três vezes por dia no horário que a gente funciona. Temos um público bem fidelizado e que, inclusive, nos ajuda. A pessoa fala: ‘Comprei um sapato, no dia seguinte trago um sapato para vocês que eu não uso mais’”.

A rede das voluntárias amplia esse alcance. Muitas chegam ao bazar com itens recolhidos entre familiares, amigos e vizinhos. Outras ajudam a abrir portas com empresas, comércios e condomínios. O Instituto Heleninha fornece caixas adesivadas para prédios, e moradores responsáveis ajudam na divulgação, no recolhimento e no encaminhamento das doações.

No prédio onde mora, Neide coloca avisos, divulga o pedido em grupos de mensagens e leva as doações para o bazar. Com isso, a captação deixa de depender apenas de campanhas formais e passa a fazer parte da rotina de quem circula pelo bairro, compra no espaço, trabalha como voluntário ou conhece alguém ligado ao instituto.

Parcerias mantêm o estoque em movimento

Além das doações de pessoas físicas, o bazar mantém parcerias com empresas e comércios. Uma delas é com lojas do Peça Rara, rede de brechós que envia excedentes para o Instituto Heleninha. A parceria foi construída por uma voluntária, que visitou unidades, conversou com responsáveis e iniciou o relacionamento.

Segundo Neide, atualmente oito unidades do Peça Rara enviam doações, além de outras redes e lojas parceiras. “A gente vai se juntando. Uma voluntária vai conversando com a outra, levando chocolates para os parceiros, sempre se fazendo presente, agradecendo e fazendo uma parceria bacana. Daí eles lembram da gente na hora que tem um descarte bom e a gente vai buscar”.

Recentemente, o Bazar Heleninha passou a funcionar em uma loja de rua. A mudança aumentou a visibilidade do espaço, facilitou o acesso de clientes antigos e passou a atrair pessoas que circulam pela região. Para uma iniciativa que depende da entrada constante de produtos, compradores e voluntárias, estar mais visível ampliou as possibilidades de arrecadação e aproximou o Instituto Heleninha do bairro.

A equipe também trabalha com metas de arrecadação. Neide conta que, antes mesmo de o instituto formalizar objetivos, as voluntárias já tinham criado uma regra anual: crescer acima da inflação. Com o amadurecimento da organização, as metas passaram a ser estabelecidas de forma mais estruturada, mas o acompanhamento dos resultados já fazia parte da rotina. “Nunca registramos queda de arrecadação, o Bazar só subiu desde o dia que foi fundado”.

O voluntariado como recurso

Para Silvia Naccache, especialista em voluntariado e voluntariado corporativo, experiências como a do Bazar Heleninha mostram que o voluntariado também precisa ser entendido como recurso. “O voluntariado é recurso. Independentemente de ele estar na captação, ele por si próprio é recurso”. Ela lembra que o Brasil reconhece juridicamente o trabalho voluntário desde 1998, pela Lei do Serviço Voluntário, e que as horas doadas também devem ser reconhecidas contabilmente pelas organizações da sociedade civil. 

No Brasil, o serviço voluntário é regulamentado pela Lei 9.608/1998 e deve ser formalizado por meio de um termo de adesão entre a organização e a pessoa voluntária. Esse documento precisa indicar o objeto do trabalho e as condições em que ele será realizado. A lei também estabelece que o voluntariado não gera vínculo empregatício nem obrigação trabalhista ou previdenciária, desde que seja uma atividade não remunerada e mantida dentro dos limites legais. Despesas realizadas no exercício da atividade podem ser ressarcidas, mas precisam ser comprovadas e autorizadas pela organização.

A formalização protege, mas não substitui a gestão. Quando há voluntários atuando em funções ligadas à captação, como bazares, eventos, campanhas, relacionamento com doadores e parcerias, é importante que a OSC tenha regras claras sobre atividades, responsabilidades, horários, reembolsos e limites de atuação. O apoio jurídico pode ajudar a estruturar termos e políticas internas para evitar que o voluntariado seja confundido com vínculo de trabalho. Já o apoio contábil é relevante para orientar o registro adequado das horas doadas e dos eventuais ressarcimentos.

Essa forma de reconhecer o voluntariado ajuda a dimensionar seu peso econômico e institucional, especialmente em organizações pequenas, nas quais diretorias, eventos, bazares, campanhas e redes de relacionamento muitas vezes dependem de trabalho não remunerado. Segundo Silvia, há diferentes formas de relação entre voluntariado e geração de recursos. O voluntário pode contribuir pelo valor das horas doadas, por meio de programas de voluntariado corporativo ou atuando diretamente em ações de captação. Essa atuação pode envolver organização de eventos, venda de convites, mobilização de doadores, recolhimento de notas fiscais, busca de produtos, ativação de redes pessoais e relacionamento com parceiros.

Tratar voluntariado como recurso exige gestão. Mesmo em ações pontuais, como festas juninas, bazares ou campanhas, a organização precisa definir regras, funções, liderança, acompanhamento e retorno sobre os resultados. “A gente precisa de uma gestão primorosa, atenciosa. Esse cuidado envolve explicar o que cada voluntário fará, onde atuará, com que frequência, quais são os limites da função e como receberá retorno sobre o impacto do trabalho”. Para Silvia, pertencimento e resultado são centrais para manter o engajamento. “O voluntário quer sentir parte e quer resultado, saber o que a instituição está fazendo com as horas recebidas”.

Neide traduz essa gestão em convivência, reconhecimento e rotina. O bazar mantém festa junina, confraternização de Natal e comemorações de aniversário das voluntárias. Para ela, esses momentos ajudam a manter a equipe unida e motivada. Embora a causa seja sensível, a infância com câncer, ela descreve o ambiente do bazar como alegre. As voluntárias sabem para quem trabalham, mas não estão no contato diário com as crianças, o que poderia tornar a rotina emocionalmente mais pesada para algumas delas. “O trabalho aqui é muito alegre. Eu não deixo nunca cair a moral. Estou sempre levantando e mostrando coisas muito boas que a gente consegue fazer com o nosso trabalho”.

Para quem deseja criar um bazar ou organizar uma iniciativa de captação voluntária, Neide diz que o ponto de partida é reunir pessoas comprometidas. A estrutura pode começar pequena. O crescimento vem com constância, organização e uma rede capaz de pedir, receber, agradecer e manter relações ativas. “Eu acho que o mais importante é você ter boas pessoas do seu lado, porque quem realmente está na mesma vibração, acompanhando e tem como propósito ajudar o outro, as coisas ficam mais fáceis”, finaliza.

Este post tem um comentário

  1. Que bom que abrimos espaço para esta pauta tão relevante por aqui, que é o voluntariado! Perceber que além de ser um recurso inclusive reconhecido contabilmente, ele é estratégico e nas organizações está em diversas frentes de ação e apoio na captação de recursos e como produto a ser comercializado por meio dos programas de voluntariado corporativo.

    Esto torcendo muito para que o VOLUNTARIADO, neste ano que o planeta e o Brasil , celebram o ANO INTERNACIONAL DO VOLUNTÁRIO – IVY2026, essa pauta esteja incluida também no Festival ABCR em setembro!

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