No momento, você está visualizando Novo Censo ABCR revela amadurecimento da captação de recursos

Novo Censo ABCR revela amadurecimento da captação de recursos

Levantamento revela uma profissão mais experiente e formalizada e aborda, pela primeira vez, desafios relacionados à diversidade, inclusão e saúde mental dos captadores de recursos

O mercado da captação de recursos no Brasil está mais profissionalizado. É o que revela a 5ª edição do Censo ABCR, principal levantamento sobre os profissionais responsáveis por mobilizar recursos para Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Elaborado pela ABCR, em parceria com a Conexão Captadoras, o estudo traz um retrato atualizado da profissão, responsável por impulsionar um setor que representa cerca de 4,27% do PIB brasileiro, e mostra avanços importantes em relação à qualificação, à experiência e ao reconhecimento da atividade, ao mesmo tempo em que aponta desafios relacionados à valorização profissional, diversidade e saúde mental.

Divulgado no último dia 10 de junho, durante a live Café ABCR, o levantamento mostra que 35% dos captadores de recursos brasileiros possuem mais de 10 anos de experiência na área. O percentual é superior aos 21% registrados em 2017 e aos 23% identificados em 2012, indicando a formação de uma geração mais experiente de profissionais e o amadurecimento da atividade no país.

O perfil dos captadores é marcado pela alta qualificação acadêmica. Entre os respondentes, 92% possuem ensino superior completo ou pós-graduação, com formações em áreas como Administração, Comunicação, Direito, Pedagogia e Serviço Social. As mulheres representam cerca de dois terços dos profissionais da área, reforçando seu protagonismo na captação de recursos.

O levantamento também aponta avanços no reconhecimento formal da profissão. Entre os profissionais contratados pelo regime CLT, 22% já estão registrados oficialmente como captadores de recursos. A ocupação passou a integrar a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) em 2021, após solicitação da ABCR ao então Ministério da Economia, ampliando sua visibilidade e reconhecimento no mercado de trabalho.

“É uma grande satisfação ver os dados do Censo e ver como demonstram uma profissão que se desenvolve e se consolida cada vez mais. Significa melhores captadores, mais capazes de trazer recursos e fortalecer as OSCs – que podem assim gerar mais impacto”, afirma Fernando Nogueira, diretor executivo da ABCR.

“É muito importante termos esses dados porque eles nos ajudam a olhar desde o otimismo ou pessimismo dos profissionais em relação ao setor até como a capacitação e a valorização da profissão trazem recursos para as entidades, associações e organizações. Por isso, precisamos cada vez mais investir na profissionalização, olhar para o que de fato é ser um profissional da área, para que a capacitação se desenvolva, as organizações se desenvolvam e o setor também se desenvolva”, afirma Ana Flavia Godoi, fundadora do Conexão Captadoras.

Profissionalização impulsiona resultados

Os dados do Censo ABCR 2025 mostram uma forte relação entre investimento em desenvolvimento profissional, estrutura organizacional e desempenho na captação de recursos. Profissionais que participaram de iniciativas de formação e construção de rede, incluindo da ABCR, como cursos e edições do Festival ABCR, apresentaram resultados melhores. 

 Entre os respondentes, a média de recursos captados por esses profissionais foi de R$ 15,2 milhões, enquanto aqueles que nunca participaram das atividades da Associação captaram, em média, R$ 4,2 milhões. A remuneração média também foi superior entre os participantes das iniciativas da ABCR, alcançando R$ 7.969, contra R$ 2.846 entre aqueles que nunca participaram.

Já os profissionais que atuam em áreas de captação já estruturadas representam 18% dos respondentes e apresentam alguns dos melhores indicadores do levantamento. Entre os participantes que se enquadram nesse perfil, 73% possuem vínculo CLT, dedicam ao menos cerca de 32 horas semanais à atividade e atuam em organizações que captam, em média, R$ 25,9 milhões por ano.

“Os resultados reforçam algo que a ABCR vem defendendo há muitos anos: a captação de recursos precisa ser vista como uma atividade estratégica dentro das organizações. Quando existe investimento em formação, estrutura adequada e valorização dos profissionais, os resultados aparecem tanto no volume de recursos captados quanto na sustentabilidade das instituições. A profissionalização não é um custo, mas um investimento que fortalece todo o ecossistema social”, destaca Ana Flavia.

As mudanças no mercado também se refletem na forma de remuneração dos profissionais, indicando tendência de maior estabilidade e profissionalização nas relações de trabalho.. A participação daqueles que recebem exclusivamente por comissão diminuiu nos últimos anos, enquanto os modelos que combinam fixo com variável ganharam espaço. Em 2017, 13% dos profissionais recebiam com esse modelo; em 2025, esse percentual chegou a 27%. 

Desafios persistem

Apesar dos avanços, a pesquisa mostra que a captação de recursos ainda não é uma atividade plenamente reconhecida e estruturada em muitas organizações sociais. O Censo ABCR revela que 35% dos respondentes não recebem remuneração específica pela atividade de captação. Entre eles estão dirigentes, conselheiros e voluntários que acumulam a função com outras responsabilidades. Nas organizações de menor porte, esse percentual chega a 44%.

O acúmulo de funções também aparece como uma das principais características da profissão. Entre os participantes do levantamento, 27% se identificaram como dirigentes que também atuam diretamente na captação de recursos. Nesse grupo, os vínculos formais são menos frequentes e a dedicação média à atividade é de apenas 17 horas semanais.

A percepção de que a captação de recursos ainda não ocupa um papel estratégico dentro das organizações aparece como o principal desafio apontado pelos profissionais ouvidos pelo levantamento. O dado revela que a área ainda enfrenta barreiras para ser reconhecida como parte central da gestão e do planejamento das organizações.

Outro indicativo das transformações no mercado é a evolução dos modelos de remuneração. O percentual de profissionais que recebem por meio de formatos híbridos, combinando salário fixo e remuneração variável, passou de 13% em 2017 para 27% em 2025. O crescimento desse modelo ocorre em paralelo à redução de formatos baseados exclusivamente em comissões e sinaliza uma busca maior por relações de trabalho mais estáveis e profissionalizadas.

Outro desafio identificado está relacionado à remuneração. Quando considerada a inflação acumulada, a renda média dos captadores apresenta perda aproximada de 15% do poder de compra em comparação aos dados registrados em 2012. O salário médio estimado entre os profissionais da área é de R$ 8.414 mensais. 

Diversidade, inclusão e saúde mental entram no radar

Pela primeira vez, o Censo ABCR também investigou aspectos relacionados à saúde mental dos captadores de recursos e também questões ligadas à diversidade e inclusão na profissão. Os resultados mostram que 48% dos profissionais relatam impactos negativos em seu bem-estar emocional decorrentes da atividade, evidenciando a importância de ampliar o debate sobre condições de trabalho, sobrecarga e suporte institucional no setor.

“O impacto negativo na saúde mental chama atenção porque a captação de recursos é uma profissão extremamente demandante. Lidamos com muitas frustrações e recebemos muitos ‘nãos’ antes de chegar aos ‘sim’. Por isso, precisamos olhar para essa questão e pensar em formas de apoiar os profissionais para que consigam lidar melhor com os desafios da atividade”, explica Ana Flavia.

Os dados também revelam desigualdades raciais significativas. Captadores não brancos recebem, em média, R$ 7.305 por mês, enquanto profissionais brancos alcançam média de R$ 8.938. Além da diferença salarial, profissionais não brancos declaram captar, em média, 47% menos recursos do que seus colegas brancos.

O levantamento também mostra que 27% dos respondentes afirmam enfrentar barreiras relacionadas a aspectos de sua identidade. Mais da metade de todos os respondentes percebem dificuldades específicas para mulheres, pessoas negras ou não brancas e outros grupos minorizados dentro da profissão. Entre os profissionais LGBTQIA+, que representam cerca de 10% da amostra, 60% relatam enfrentar esse tipo de obstáculo em sua atuação profissional.

Ana Flavia complementa que as diferenças que aparecem na pesquisa refletem questões que encontramos em diversos setores da sociedade e mostram a importância de valorizarmos cada vez mais os movimentos de diversidade. “Por isso, é importante olhar para esses dados, reconhecer essas diferenças e discutir como podemos mitigar essas desigualdades dentro da profissão”.

Mais da metade dos captadores vê um futuro promissor para a área

Mesmo diante dos desafios, os profissionais de captação de recursos demonstram confiança no futuro da área. O percentual de captadores que avaliam positivamente o cenário da captação de recursos no Brasil alcançou 56% em 2025, acima dos 39% registrados em 2017. Quando a avaliação se refere à própria carreira, o índice de otimismo sobe para 68%.

Os resultados apontam para uma profissão em processo de amadurecimento, com profissionais mais experientes, maior reconhecimento institucional e crescente formalização. Ao mesmo tempo, o levantamento reforça a necessidade de ampliar investimentos em desenvolvimento institucional, estruturação das áreas de captação e valorização profissional para que o crescimento do setor seja sustentável a longo prazo.

“Uma das coisas que colocamos como prioridade foi fortalecer a profissão do captador de recursos. Isso passa pela capacitação, mas também por mostrar que nossa profissão é estratégica dentro das organizações. Nós não somos apenas as pessoas que trazem recursos; nos relacionamos com toda a comunidade e temos um papel importante para o desenvolvimento institucional. Enquanto a captação de recursos não for vista como uma área estratégica, ela não vai prosperar. As organizações que crescem são aquelas que investem na profissionalização, na capacitação e no fortalecimento dessa área”, finaliza Flavia Lang, presidente do Conselho da ABCR.

Sobre a ABCR

A Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) reúne e representa os profissionais de captação, mobilização de recursos e desenvolvimento institucional, que atuam para as organizações da sociedade civil no Brasil. Lidera campanhas, eventos e uma série de outras iniciativas de fortalecimento do setor e de apoio a quem atua por uma sociedade mais justa e democrática. Saiba mais em captadores.org.br. 

Sobre a Conexão Captadoras

Criada em 2020, a Conexão Captadoras é uma rede colaborativa de mulheres captadoras de recursos dedicada ao intercâmbio de conhecimento, ao fortalecimento profissional e à promoção da liderança feminina no setor. Atualmente, reúne mais de 500 profissionais e desenvolve iniciativas de mentoria, formação, networking e apoio à saúde mental das participantes. Mais informações em www.conexaocaptadoras.ong.br

Deixe um comentário