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Bazares sociais podem ampliar captação e fortalecer comunidades

Em palestra no Esquenta Festival ABCR 2026, Raísa Martins mostrou como planejamento, gestão e profissionalização podem transformar bazares em fontes de recursos livres para as OSCs

Um bazar social pode representar uma fonte contínua de recursos livres para organizações da sociedade civil, além de ampliar o relacionamento com a comunidade, gerar oportunidades no território e aproximar novos públicos da causa. Para isso, precisa integrar o planejamento institucional. Esse foi o tema da palestra “Como bazares sociais podem impulsionar a captação de recursos da sua OSC”, apresentada por Raísa Martins, gerente do Instituto Lojas Renner, durante o Esquenta Festival ABCR 2026.

O Instituto atua há 18 anos com iniciativas voltadas à inclusão de mulheres no mundo do trabalho e ao relacionamento com comunidades e foi um dos expositores do Festival ABCR 2026. A experiência com a distribuição de peças de vestuário para organizações sociais levou à criação de um programa voltado à qualificação dos bazares. “A gente percebeu que não adiantava só doar roupa. Precisava também apoiar as organizações da sociedade civil a qualificarem seus bazares, profissionalizarem e trazerem conhecimento sobre como fazer e como gerar uma experiência bacana”, afirmou Raísa.

Instituto Lojas Renner no Festival ABCR 2026


Recurso livre para a organização

A receita gerada por um bazar pode contribuir para o desenvolvimento institucional e cobrir despesas que nem sempre aparecem nos orçamentos de projetos financiados. Por ser um recurso não carimbado, a organização tem maior liberdade para decidir onde aplicá-lo. O bazar, no entanto, precisa fazer parte de uma estratégia mais ampla. É necessário definir sua finalidade, estabelecer metas de arrecadação, calcular custos, organizar responsabilidades e relacionar a iniciativa aos objetivos de médio e longo prazo da OSC.

“O bazar solto também não adianta. Ele pode ser um superbazar, mas, se não faz parte de uma estratégia de uma organização que está pensando seu desenvolvimento a médio e longo prazo, sozinho não vai fazer barulho”, explicou Raísa. A operação também exige uma mentalidade empreendedora, com atenção à gestão, à criatividade e aos aspectos comerciais.

Gestão, precificação e estoque

Acompanhando organizações que recebiam doações de roupas, o Instituto Lojas Renner identificou fragilidades relacionadas à governança, aos controles financeiros e à organização dos processos. Em alguns casos, as equipes não sabiam quantas peças de determinada categoria haviam sido vendidas nem quais produtos tinham maior saída.

A gestão de estoque também apresentava problemas. Roupas apropriadas para determinada estação permaneciam guardadas enquanto outros produtos ocupavam o espaço principal. Sem registros das entradas e vendas, tornava-se difícil planejar campanhas de doação ou organizar a exposição das peças. Outro ponto observado foi a precificação. Alguns bazares comercializavam peças por R$ 3 ou R$ 5 mesmo quando elas tinham qualidade e público para alcançar valores maiores. “Acho importante fazer essa provocação de que o preço pode subir um pouco sem perder o impacto social”, disse Raísa.

Uma possibilidade é adotar preços diferenciados. Pessoas atendidas pela organização ou moradores da comunidade podem ter acesso a descontos, enquanto outros públicos pagam o valor integral. A estratégia permite conciliar geração de receita e democratização do acesso às roupas.

Comunicação influencia as vendas

Há bazares que não conseguem alcançar bons resultados porque são pouco conhecidos, inclusive entre moradores do próprio entorno. A organização precisa informar o que está disponível, os horários de funcionamento, as novidades e a relação entre as vendas e o trabalho social realizado.

Os dados das vendas ajudam a orientar essa comunicação. Se moletons têm maior procura, podem aparecer na vitrine e nos materiais de divulgação. Caso o público busque principalmente roupas infantis, a organização pode direcionar suas campanhas de arrecadação para esses produtos.

Também é possível organizar uma base de clientes, respeitando as exigências da Lei Geral de Proteção de Dados, para informar sobre novas peças e edições especiais. O histórico de compras permite desenvolver comunicações mais adequadas aos interesses de cada público. “Avaliar é entender o que está vendendo mais. Se eu percebo que é só colocar moletom que ele sai, então é moletom que vai estar na minha vitrine e no meu post”, exemplificou Raísa.

Experiência de compra também importa

A profissionalização passa pela organização do espaço, pela limpeza e conservação das peças, pelo atendimento e pela forma como os produtos são expostos. Segundo Raísa, roupas acumuladas, ambientes pouco cuidados e ausência de identificação das categorias podem afastar compradores e reduzir as vendas. “Não é porque é peça usada, não é porque é uma organização social, que tem que ser frágil, simples ou feio. É uma oportunidade para aquela pessoa não só comprar, mas também ter contato com a sua causa e com a sua organização.

Quem frequenta o bazar não deve ser visto apenas como cliente. A compra pode ser o primeiro contato com a OSC e abrir caminho para outras formas de participação e apoio. Por isso, o espaço também funciona como uma vitrine do trabalho desenvolvido. A localização interfere nos resultados. Sempre que possível, o bazar deve ocupar uma área visível e acessível, que facilite a circulação de pessoas. “Bazar é para frente, bazar é para rua, porque a quantidade de gente que não entra é muito grande. Essa experiência de ver é muito importante”, orientou.

Formação considera toda a organização

O Programa de Aceleração de Bazares do Instituto Lojas Renner já beneficiou mais de 60 organizações. A metodologia combina workshops, mentorias, visitas técnicas e atividades relacionadas à montagem das araras, limpeza e recuperação das peças e organização dos espaços. A formação está dividida em quatro dimensões. A primeira aborda a liderança responsável pelo bazar, com temas como ética, diversidade, saúde mental e autocuidado. A segunda trata da relação com a comunidade, da escuta do território e do voluntariado.

A terceira considera a estrutura da OSC, incluindo gestão, governança, comunicação, captação e sustentabilidade. A última se concentra diretamente na operação do bazar, com conteúdos sobre vendas, leiaute, exposição e atendimento. “Não adianta ter um bazar forte em uma organização com a gestão fragilizada”, ressaltou Raísa.

O programa também oferece apoio financeiro para pequenas melhorias na infraestrutura, como pintura, instalação de ventiladores ou aparelhos de ar-condicionado e aquisição de balcões e outros itens necessários ao atendimento.

Bazar pode movimentar o território

Além de oferecer roupas a preços acessíveis, a iniciativa pode criar oportunidades de trabalho e renda. Organizações podem contratar costureiras da comunidade para fazer reparos, envolver moradoras na limpeza das peças ou reservar espaço para a comercialização de produtos feitos por artesãs locais.

Outra possibilidade é trabalhar com vendas consignadas. Mulheres atendidas pela organização podem receber algumas peças, vendê-las em suas redes e ficar com uma comissão. “Esse ativo pode e deve gerar valor para além do próprio bazar”, afirmou. A iniciativa também contribui para a sustentabilidade ambiental. Ao colocar novamente em circulação roupas que poderiam ser descartadas, prolonga a vida útil das peças e reduz a geração de resíduos.

OSC pode começar com edições pontuais

Organizações que ainda não possuem estrutura para manter uma loja permanente podem começar com bazares em datas específicas ou realizar edições mensais. A experiência permite conhecer o público, avaliar os produtos com maior procura e testar a capacidade operacional da equipe.

Antes da abertura, é necessário definir a meta de captação, calcular os gastos fixos, identificar quem será responsável pela iniciativa e organizar a mobilização de doações e voluntários. A avaliação de cada edição ajuda a decidir se é possível aumentar a frequência ou avançar para um espaço fixo. O crescimento também pode ocorrer por meio de bazares itinerantes, ações em empresas, participação em eventos ou vendas em outros bairros.

Doações precisam ser diversificadas

Assim como ocorre com os recursos financeiros, depender de uma única fonte de roupas pode comprometer a continuidade da iniciativa. Além das contribuições de pessoas físicas, as OSCs podem procurar indústrias, confecções, empresas e órgãos públicos que destinam produtos apreendidos.

Campanhas realizadas dentro de empresas também podem gerar peças em melhores condições. A parceria pode incluir a instalação de pontos de coleta e, posteriormente, a realização de um bazar para os funcionários. Algumas organizações ainda complementam o estoque com produtos adquiridos diretamente de fabricantes ou produzidos por integrantes da comunidade. A escolha depende do público, da estrutura disponível e da margem necessária para sustentar a atividade.

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