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Generosidade na América Latina e no Caribe: o que os dados revelam sobre a região 

A generosidade na América Latina e no Caribe tem muitos rostos e poucos dados. Essa é a constatação central da segunda edição do relatório Generosidade na América Latina e no Caribe, lançado pelo Hub regional do movimento GivingTuesday. O estudo propõe um olhar mais amplo sobre as práticas de doar na região, reunindo dados de 33 países para entender como, por que e para quem se doa. O Brasil desponta como um dos países com maior volume de informações disponíveis, mas também enfrenta barreiras típicas da região, como a desconfiança nas instituições e a prevalência da ajuda direta entre as pessoas.

Muito além das doações formais

O primeiro achado do relatório é também o mais revelador: a generosidade latino-americana ocorre majoritariamente fora dos canais institucionais. As pessoas doam, ajudam e participam, mas o fazem a partir de vínculos de confiança e reciprocidade, seja entre vizinhos, familiares ou membros da comunidade. Segundo o World Giving Report 2025, 35% das pessoas da região relataram ter ajudado diretamente alguém em necessidade, contra 26% que doaram para organizações sociais. Esse dado se repete em diferentes levantamentos e reforça que, na América Latina e no Caribe, o ato de doar é antes de tudo relacional.

Essa característica cultural também explica por que os indicadores tradicionais de filantropia frequentemente subestimam o grau de engajamento da população. As métricas mais usuais, como percentual de renda doada a organizações ou deduções fiscais, foram desenhadas a partir de realidades do norte global, onde a filantropia é altamente institucionalizada. Ao aplicá-las na região, acaba-se ignorando práticas comunitárias como as mingas (práticas coletivas tradicionais de trabalho comunitário voluntário), os mutirões, as remessas compartilhadas e outras formas de solidariedade que não passam por registros contábeis, mas sustentam grande parte das redes de apoio.

Para os captadores de recursos, isso significa que fortalecer relações de confiança e pertencimento é tão importante quanto oferecer canais formais de doação. Em contextos onde a generosidade se manifesta em redes de apoio e vínculos comunitários, é fundamental investir em presença no território, escuta ativa e envolvimento direto com a base social.

O lugar do Brasil 

Entre os 33 países analisados, o Brasil se destaca por ter um dos ecossistemas de dados mais robustos. O país tem estatísticas oficiais, como o Mapa das OSCs do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, e realiza pesquisas regulares sobre doações, como a Pesquisa Doação Brasil, do IDIS. Em 2024, segundo o estudo, 78% dos brasileiros fizeram algum tipo de doação e 43% contribuíram com organizações da sociedade civil, resultando em um volume total estimado de R$ 24,3 bilhões.

Apesar desses números expressivos, a confiança nas organizações ainda é baixa: apenas 30% das pessoas acreditam que a maioria das organizações é confiável. Esse índice aparece como a principal barreira para ampliar o volume de doações institucionais no país. Ainda assim, o Brasil se mostra um laboratório importante de mobilização: o Dia de Doar, versão local do GivingTuesday, é uma das campanhas mais potentes do mundo.

Outro dado relevante é a forma multifacetada de engajamento do brasileiro. De acordo com o relatório State of Generosity, 49% das pessoas que doam no Brasil o fazem de forma combinada: com dinheiro, itens e tempo. Esse comportamento integrado é mais frequente aqui do que em países como Estados Unidos e Reino Unido, sugerindo que a generosidade no país vai além da contribuição financeira e envolve diferentes formas de cuidado coletivo.

A força invisível da América Central e do Caribe

Se por um lado o Brasil, o México, a Colômbia e o Chile concentram a maior parte dos estudos e dados disponíveis sobre a região, por outro, países da América Central e do Caribe seguem amplamente invisibilizados nas principais pesquisas globais, apesar de apresentarem os índices mais altos de doação proporcional à renda. Honduras, El Salvador e República Dominicana, por exemplo, registram taxas de doação entre 1,17% e 1,38% da renda média, superando com folga nações mais ricas como Chile, Argentina e Uruguai.

Esse paradoxo entre prosperidade e generosidade é outro achado importante do relatório. Aparentemente, quanto menor a renda de um país, maior o senso de responsabilidade coletiva e disposição para apoiar o próximo. Trata-se de uma generosidade enraizada na cultura do cuidado e da partilha, muitas vezes mais próxima das tradições comunitárias do que dos modelos de filantropia estruturada.

No entanto, a ausência de dados sistematizados sobre essas práticas limita o reconhecimento institucional dessas formas de doação. O relatório recomenda atenção especial às remessas enviadas por imigrantes, que já representam mais de 20% do PIB em países da América Central e que frequentemente são redistribuídas para além do núcleo familiar, alcançando redes mais amplas da comunidade.

Generosidade como base da vida cívica

Mais do que um comportamento pontual, a generosidade é também um vetor de engajamento cívico. Pessoas que fazem voluntariado ou participam de ações de incidência política apresentam níveis mais altos de confiança, empatia, senso de pertencimento e disposição para dialogar com quem pensa diferente. Esses dados, extraídos do State of Generosity, ajudam a qualificar o debate sobre o papel das doações e do voluntariado como instrumentos de fortalecimento democrático.

No Brasil e no México, por exemplo, voluntários e ativistas pontuaram até 30 pontos percentuais a mais em atitudes cívicas do que a média da população. A generosidade, portanto, não apenas reflete a saúde da vida pública, ela também a constrói ativamente.

Construindo marcos próprios para a filantropia regional

Diante do reconhecimento de que os modelos tradicionais não dão conta de explicar a generosidade latino-americana, o GivingTuesday LAC decidiu lançar um projeto inédito de mapeamento das identidades filantrópicas da região. A iniciativa, em parceria com o Centro Mexicano para la Filantropía (CEMEFI), propõe investigar as motivações, os valores e as formas que sustentam o ato de doar em diferentes territórios. A ideia é abandonar as métricas importadas e construir um marco conceitual próprio, que reflita as realidades vividas por milhões de pessoas que exercem generosidade cotidianamente, ainda que fora dos registros oficiais.

Esse olhar mais atento às identidades também pode ajudar organizações da sociedade civil a se comunicar melhor com seus públicos, construir alianças mais coerentes com seus valores e redesenhar estratégias que respeitem a cultura do dar de suas comunidades.

Apesar dos avanços, o relatório reconhece que grandes áreas da generosidade regional seguem pouco estudadas. Falta compreensão mais profunda sobre filantropias indígenas, sobre as práticas de reciprocidade que coexistem com os modelos ocidentais e sobre como o apoio financeiro circula informalmente dentro das comunidades. Sem incorporar essas dimensões, qualquer análise permanecerá parcial e qualquer política pública ou estratégia de captação corre o risco de reproduzir invisibilidades.

O Relatório Generosidade na América Latina e no Caribe 2025 está disponível em Português, Inglês e Espanhol no site www.givingtuesday.org/lac

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