No momento, você está visualizando Recursos livres representam apenas 18% das oportunidades de captação para fortalecer OSCs

Recursos livres representam apenas 18% das oportunidades de captação para fortalecer OSCs

Estudo da Plataforma Conjunta mapeou 233 oportunidades em 2025 e revela predominância de financiamentos de curta duração, temporários e sem previsão de renovação

A oferta de recursos para fortalecer a gestão, a estrutura e a sustentabilidade das organizações da sociedade civil cresceu, mas os financiamentos livres, contínuos e de longo prazo ainda são minoria. É o que revela o Estudo Panorama Conjunta 2025–2026, lançado pela Plataforma Conjunta, que analisou oportunidades de formação e captação de recursos voltadas ao desenvolvimento institucional das OSCs brasileiras.

Em 2025, foram mapeadas 233 oportunidades de captação de recursos compatíveis com os critérios da plataforma. Desse total, somente 42, o equivalente a 18,03%, ofereciam recursos livres ou flexíveis. Nessa modalidade, o financiador não determina previamente como todo o dinheiro deve ser utilizado, permitindo que a organização defina suas prioridades e cubra despesas operacionais, invista na equipe, aprimore a gestão ou responda a necessidades imprevistas.

A maior parte das oportunidades, 124 ou 53,22%, era direcionada expressamente ao desenvolvimento institucional. Outras 67, correspondentes a 28,76%, financiavam projetos e permitiam destinar uma parcela do orçamento a despesas institucionais. O desenvolvimento institucional reúne as condições necessárias para que uma OSC consiga cumprir sua missão e manter sua atuação ao longo do tempo. O conceito adotado pela Plataforma Conjunta envolve áreas como comunicação, gestão financeira, gestão de pessoas, autocuidado, captação de recursos, monitoramento e avaliação, planejamento, gestão jurídica, governança, diversidade e inclusão e tecnologia.

O levantamento considerou tanto oportunidades diretamente destinadas a essas dimensões quanto editais que permitiam incluir componentes institucionais nos projetos ou reservar ao menos 20% dos recursos para despesas operacionais e administrativas.

Número de oportunidades mapeadas quase quadruplicou

As 233 oportunidades registradas representam um aumento expressivo diante das 63 identificadas em 2024. O crescimento foi de aproximadamente 270%. A comparação, porém, precisa ser feita com cautela. A edição mais recente ampliou as fontes consultadas, qualificou a metodologia de busca e incorporou, em parceria com a Plataforma MROSC, editais públicos municipais, estaduais e federais. A expansão da base, portanto, não significa necessariamente que a quantidade de recursos disponíveis tenha crescido na mesma proporção.

Ao longo de 2025, a equipe da Plataforma Conjunta analisou 472 editais. Depois da aplicação dos critérios de curadoria, 233, ou 49,36%, foram considerados compatíveis com a proposta do estudo.

Foram incluídos editais, chamadas abertas, cartas-convite, chamamentos públicos e cadastros em plataformas que ofereciam recursos para organizações da sociedade civil e movimentos sociais. O levantamento excluiu, entre outros casos, editais baseados exclusivamente em leis de incentivo e oportunidades que não permitiam qualquer investimento na estrutura ou no fortalecimento institucional da organização.

Somadas às 560 oportunidades de formação identificadas no mesmo período, as iniciativas de captação elevaram para 793 o total de oportunidades mapeadas em 2025. Em 2024, haviam sido registradas 346. O universo observado pelo estudo, portanto, aumentou 129%.

Apesar desse crescimento, as formações continuaram muito mais numerosas do que as oportunidades financeiras: elas corresponderam a 70,6% do total. O resultado mostra que o acesso a conhecimento e capacitação permanece mais disseminado do que a oferta de dinheiro para aplicar esse aprendizado e sustentar mudanças nas organizações.

Quase dois terços dos financiamentos duram até um ano

A curta duração dos financiamentos é um dos principais resultados do estudo. Das 233 oportunidades de captação mapeadas, 146, ou 62,66%, previam apoio por até um ano. Outras 35 ofereciam recursos por um período entre um e dois anos. Apenas 18 tinham duração entre dois e três anos e somente três ultrapassavam três anos. Em 31 oportunidades, a duração do financiamento não foi informada.

O predomínio dos ciclos anuais também apareceu nas modalidades mais diretamente relacionadas ao fortalecimento das organizações. Entre as 124 oportunidades destinadas expressamente ao desenvolvimento institucional, 81, aproximadamente 65%, duravam até um ano. Mais da metade das 42 oportunidades de recursos livres ou flexíveis seguia o mesmo padrão.

A concentração em períodos curtos pode dificultar processos que dependem de continuidade e amadurecimento, como a estruturação de uma equipe, a implantação de sistemas de gestão, o fortalecimento da governança, a diversificação das fontes de receita ou a construção de uma reserva financeira.

A comparação com 2024 indica que o peso dos apoios de até um ano aumentou. Na edição anterior do estudo, eles correspondiam a 26,98% das oportunidades analisadas, enquanto os financiamentos com mais de três anos tinham uma participação proporcionalmente maior.

Apenas 8% informam possibilidade de renovação

Além de curtos, os financiamentos raramente apresentam uma perspectiva clara de continuidade. Somente 19 oportunidades, 8,15% da amostra, informavam a possibilidade de renovação. Outras 47 declaravam que o apoio não poderia ser renovado. Na maior parte dos casos, 167 oportunidades ou 71,67% do total, essa informação não estava disponível.

A predominância dos apoios pontuais também aparece na forma de disponibilidade. Ao todo, 213 oportunidades, 91,42%, eram temporárias, abertas e encerradas em períodos determinados. Apenas 20, ou 8,58%, permaneciam disponíveis continuamente.

O estudo relaciona esse resultado à forte presença dos editais, que normalmente possuem prazos definidos para inscrição e execução. Ainda assim, a ausência de informações sobre renovação limita a capacidade das OSCs de prever receitas e planejar investimentos institucionais para períodos mais longos.

Editais concentram 89% das seleções

Os editais foram utilizados em 207 oportunidades, aproximadamente 89% da amostra. As chamadas abertas apareceram em 22 casos, ou 9,44%, e outros formatos de seleção foram identificados em quatro oportunidades. O estudo reconhece que os editais podem ampliar o acesso às oportunidades ao estabelecer regras públicas e critérios conhecidos. Ao mesmo tempo, chama a atenção para as barreiras criadas por processos que exigem capacidade técnica, documentação, elaboração de projetos, construção de orçamentos e disponibilidade de pessoal.

A análise dos critérios de seleção encontrou recorrência de termos relacionados a impacto, experiência, capacidade, execução, orçamento, clareza e coerência. Essa orientação pode favorecer organizações que já contam com equipes estruturadas e maior familiaridade com processos seletivos. O resultado expõe um desafio para os financiamentos voltados justamente ao desenvolvimento institucional: organizações com menos estrutura podem ter mais dificuldade para acessar os recursos necessários para se fortalecer.

Oportunidades acima de R$ 200 mil são as mais frequentes

A maior parcela das oportunidades oferecia investimentos superiores a R$ 200 mil. Foram 82 registros nessa faixa, equivalentes a 35,19% do total. Na sequência aparecem 60 oportunidades, 25,75%, com valores entre R$ 11 mil e R$ 50 mil. Outras 34, ou 14,59%, ofereciam entre R$ 101 mil e R$ 200 mil. As faixas de R$ 1 mil a R$ 10 mil e de R$ 51 mil a R$ 100 mil reuniram 22 oportunidades cada. Em 13 casos, o valor não foi informado.

O estudo ressalta que esses montantes devem ser analisados de acordo com o porte da organização, a duração do apoio e as regras para utilização do dinheiro. Um valor elevado destinado principalmente à execução de atividades finalísticas não produz necessariamente as mesmas condições institucionais que um recurso flexível, mesmo que este seja menor.

Entre as oportunidades acima de R$ 200 mil, 22 eram provenientes de financiadores internacionais, o equivalente a 26,8% dos registros nessa faixa. Bancos e organismos multilaterais e bancos públicos também concentraram proporcionalmente investimentos de maior valor. No conjunto da amostra, as oportunidades internacionais perderam participação relativa. Elas representavam 26,98% dos registros em 2024 e passaram a 15,88% em 2025. O levantamento não permite afirmar se houve uma retração do financiamento internacional, pois a mudança também pode decorrer da ampliação da identificação de oportunidades nacionais.

Poder público responde por 23% das oportunidades

As fundações e os institutos independentes permaneceram como o principal grupo financiador, responsáveis por 38,24% dos registros. A incorporação dos editais públicos, entretanto, revelou uma participação expressiva dos governos. Somadas as instâncias municipal, estadual e federal, o poder público respondeu por 23,25% das oportunidades analisadas, ocupando a segunda posição entre os perfis de financiadores.

O resultado amplia a compreensão sobre as fontes disponíveis para o fortalecimento institucional das OSCs, mas deve ser interpretado considerando a alteração metodológica. Na edição anterior, os editais governamentais não eram identificados com o mesmo alcance.

O estudo também recupera dados sobre a concentração do acesso aos recursos públicos. Apesar da presença dessas oportunidades, somente uma pequena parcela das OSCs brasileiras mantém parcerias financiadas pelo governo federal, o que indica que a disponibilidade dos editais não significa necessariamente acesso disseminado.

Meio ambiente lidera os temas financiados

Como cada oportunidade podia contemplar mais de uma área, o levantamento contabilizou 471 ocorrências temáticas entre os 233 registros. Meio ambiente foi o tema mais frequente, presente em 84 oportunidades, ou 17,83% das ocorrências. Desenvolvimento territorial e Direitos Humanos apareceram na sequência, ambos com 58 registros e participação de 12,31%.

Também tiveram presença significativa Educação, com 45 oportunidades; Equidade de gênero, com 38; Arte e Cultura, com 35; e Equidade racial, com 34. A pauta ambiental também se destacou entre os maiores investimentos. Das oportunidades acima de R$ 200 mil, 38 estavam relacionadas ao tema. O levantamento relaciona essa presença ao contexto da COP30, realizada no Brasil em 2025, que ampliou a centralidade da agenda climática.

Apesar da liderança ambiental, o estudo identificou uma distribuição relativamente equilibrada entre as diferentes áreas, com presença de agendas socioambientais, territoriais, educacionais e ligadas a direitos e equidade.

Nordeste e Norte ganham presença no mapa do financiamento

Quase metade das oportunidades, 44,73%, possuía abrangência nacional. Entre aquelas direcionadas a regiões específicas, o Nordeste somou 39 registros, o Norte 31 e o Centro-Oeste 23. Sul e Sudeste apareceram com 18 oportunidades cada. Como algumas iniciativas abrangiam mais de uma localidade, a distribuição regional considera todas as áreas contempladas.

A presença do Nordeste, do Norte e do Centro-Oeste indica atenção a regiões historicamente afetadas por desigualdades no acesso ao financiamento. Ainda assim, o estudo não permite verificar onde os recursos foram efetivamente aplicados, pois analisa a elegibilidade territorial das oportunidades, e não os resultados das seleções.

Para acessar o estudo completo, acesse conjunta.org/conteudo/panorama-conjunta-2025

Deixe um comentário