A generosidade é um dos pilares das sociedades na América Latina e no Caribe. Desde práticas de trocas solidárias ancestrais até a filantropia moderna, os atos de doação refletem a rica diversidade cultural, histórica e econômica da área. O Relatório sobre Generosidade na América Latina e no Caribe, lançado pelo Hub do GivingTuesday para América Latina y el Caribe (LAC), apresenta uma análise detalhada sobre essas dinâmicas. Com base em mais de 140 documentos e estudos, o relatório destaca padrões e obstáculos enfrentados pelas práticas de generosidade na região, que abriga mais de 650 milhões de habitantes distribuídos entre 33 países e 17 territórios, representando cerca de 8% da população mundial.
O primeiro apontamento do estudo é o de que vivemos em uma região de generosidade pouco documentada. Apenas oito países, entre eles o Brasil, são consistentemente incluídos em estudos globais sobre filantropia. Os países do Caribe, em especial, estão ausentes da maioria das análises, o que contribui para a invisibilidade de práticas locais e limita a possibilidade de desenvolver estratégias baseadas nas particularidades culturais e sociais de cada país.
A complexidade do Terceiro Setor
Na América Latina, o terceiro setor assume muitas formas e denominações. Os termos “organização não governamental” (ONG) e “organização da sociedade civil” (OSC) são amplamente usados, mas ainda há muita confusão conceitual entre essas expressões e outras como “terceiro setor” ou “economia social e solidária”. Essa falta de clareza reflete a heterogeneidade da região e a pluralidade de estruturas legais que regulam as atividades do setor.
Em países como o México, um marco significativo ocorreu em 2004, quando uma lei reconheceu oficialmente o papel das OSCs no desenvolvimento social e nas políticas públicas. Desde então, as OSCs mexicanas passaram a ser vistas como atores-chave na promoção do bem-estar social, mas essa formalização está longe de ser universal na região. Muitas iniciativas continuam a operar de forma informal, por escolha ou necessidade, devido aos desafios burocráticos e financeiros para a constituição de entidades formais.
Embora existam incentivos fiscais para estimular a filantropia, eles variam amplamente entre os países, com deduções que vão de 1% no Panamá a até 75% no Uruguai. Além disso, poucos países possuem regulamentações claras para a criação de fundos patrimoniais, o que dificulta a sustentabilidade financeira de muitas organizações.
Formas de doar
A generosidade na América Latina e no Caribe se manifesta de várias maneiras, incluindo doações monetárias, voluntariado e ações comunitárias. Uma característica marcante da região é a preferência por doações informais, voltadas diretamente a indivíduos em vez de organizações estabelecidas. Em países como Brasil e México, essa prática é amplamente predominante, contrastando com países como Estados Unidos e Reino Unido, onde as doações são mais frequentemente destinadas a organizações formalizadas.
Além das doações em dinheiro, a população da região é generosa com bens materiais, como alimentos e roupas, e com o tempo, por meio de trabalho voluntário. O World Giving Index, que mede três comportamentos universais de generosidade (ajudar um estranho, doar dinheiro e oferecer tempo como voluntário), posicionou Honduras como o país mais generoso da região em 2023. No entanto, nenhum país da América Latina figura entre os 10 primeiros no ranking global.
Voluntariado
Um dos aspectos mais marcantes da generosidade na região é o voluntariado. Dados da ONU apresentados no relatório mostram que o trabalho voluntário na América Latina e no Caribe equivale a 13,3 milhões de empregos de tempo integral. Esse número ilustra a relevância econômica e social do voluntariado, que frequentemente preenche lacunas deixadas pelos governos em áreas como educação, saúde e assistência social.
As universidades são importantes na promoção do voluntariado entre jovens. Segundo o relatório, 90% das universidades pesquisadas oferecem programas de voluntariado, sendo que 70% alinham essas atividades aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). No entanto, mais de 80% dessas instituições não realizam estudos ou avaliações sobre o impacto dessas ações, o que dificulta a mensuração de seus benefícios e limita o desenvolvimento de políticas públicas que incentivem o voluntariado de forma mais ampla.
Agenda para o futuro
O relatório termina indicando que um esforço coordenado entre financiadores, organizações sem fins lucrativos, pesquisadores e ativistas é essencial para preencher as lacunas de dados e fortalecer o ecossistema filantrópico na América Latina e Caribe. Apesar das ricas tradições de generosidade e das práticas informais na região, o estudo aponta a escassez de informações precisas sobre os doadores e suas motivações, enquanto os dados disponíveis se concentram mais na estrutura das organizações.
Para enfrentar essas limitações, o relatório sugere maior investimento em pesquisas sobre filantropia, incluindo parcerias com centros de estudo para ampliar o impacto. Recomenda também a inclusão de todos os países e territórios da região nas análises, reconhecendo sua diversidade e evitando um enfoque restrito a grandes nações. Além disso, enfatiza a necessidade de fortalecer organizações intermediárias, promovendo colaborações entre financiadores e garantindo recursos adequados para iniciativas de longo prazo.
Relatório sobre Generosidade na América Latina e no Caribe na íntegra com os dados dividos por país, acesse www.givingtuesday.org/latinamerica-caribbean/