A transparência pode ter efeito direto sobre a captação de recursos no terceiro setor. A forma como uma organização registra procedimentos, controla despesas, separa recursos e demonstra resultados pesa na construção de credibilidade junto a financiadores. Quando essas informações não são apresentadas com clareza, o problema deixa de ser apenas administrativo e passa a interferir no acesso a editais, parcerias e doações. Esse foi o tema de uma live promovida pelo OSC Legal Instituto, com participação de Edel Wegbrayt, diretora financeira da SITAWI Finanças do Bem.
A Pesquisa Doação Brasil 2024 mostrou que 81% dos brasileiros consideram a confiança na instituição um fator determinante para doar, mas só 30% afirmam acreditar que a maioria das ONGs é confiável e apenas 33% acham que elas deixam claro o que fazem com o dinheiro que recebem. Na conversa, Edel defendeu que transparência precisa ser tratada como uma prática construída no dia a dia, ligada à forma como a organização conduz sua gestão, documenta procedimentos, acompanha o uso dos recursos e compartilha essas informações com clareza, o que reverte em confiança.
“A gente vê a dificuldade que organizações de pequeno porte têm para trazer os seus números organizados em balanço e demonstrações financeiras”, disse. Na avaliação dela, em editais, essa fragilidade acaba excluindo iniciativas que têm propostas consistentes, mas não conseguem “demonstrar os requisitos formais básicos para se fazerem confiáveis”.
Clareza, consistência e controle compartilhado: os três Cs da transparência
Para explicar o que considera uma gestão financeira transparente, Edel resumiu essa prática em três elementos: clareza, consistência e controle compartilhado. A clareza, segundo ela, começa na definição de regras e procedimentos. Isso pode incluir, por exemplo, orientações registradas sobre aprovação de despesas, reembolsos, uso de recursos de projetos, contratação de fornecedores e prestação de contas. O ponto central é que a organização tenha critérios definidos e saiba demonstrar como eles funcionam.
A consistência aparece quando essas regras não ficam só no papel. Se a organização estabelece, por exemplo, que toda despesa deve ser aprovada antes de ser realizada, registrada em centro de custo específico e acompanhada de comprovante válido, esse procedimento precisa ser seguido na rotina. Sem isso, a política existe formalmente, mas não sustenta a transparência na prática.
Já o controle compartilhado diz respeito à forma como essas informações são organizadas e disponibilizadas a quem acompanha ou financia o trabalho. Isso pode acontecer por diferentes meios, como relatórios periódicos, planilhas, pastas compartilhadas ou sistemas internos. “Dar acesso de como os recursos são utilizados, como as transações são realizadas, quais são os documentos que embasam essas transações”, afirmou Edel ao explicar esse ponto.
A contabilidade entra nesse debate como parte da própria estrutura de transparência. Ao falar sobre gestão financeira, Edel afirmou que ela é “fundamental” para organizar os diferentes tipos de recursos e dar sustentação à prestação de contas. Nesse ponto, chamou atenção para um cuidado básico: não misturar recursos próprios com recursos de projetos ou de terceiros.
Erros também precisam entrar na transparência
A forma como a organização lida com falhas também diz muito sobre o seu nível de transparência. Não basta mostrar resultados bons, números positivos e projetos que deram certo. Transparência também aparece quando a instituição consegue reconhecer que alguma coisa não funcionou como deveria.
Em vez de esconder problemas por medo de desgaste, a organização precisa ter maturidade para olhar para o erro com seriedade. Isso significa entender o que aconteceu, identificar de onde veio a falha, avaliar seus impactos e, principalmente, mostrar o que será feito a partir dali para que a situação não se repita. “Ao compreender a origem do erro, a gente consegue ter um aprendizado daquilo e esse aprendizado também é interessante de compartilhar”, disse Edel.
Quando uma instituição admite um problema e demonstra que aprendeu com ele, passa uma mensagem importante: a de que está mais preocupada em agir com responsabilidade do que em proteger a própria imagem a qualquer custo. Isso ajuda a construir confiança, porque mostra que existe compromisso real com a melhoria do trabalho e não apenas com a aparência de que está tudo sempre sob controle.