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Quem vem primeiro: DI ou acesso a oportunidades de DI?

Por Fernando Nogueira, diretor executivo da ABCR e professor da FGV-SP

O Estudo Panorama Conjunta 2025–2026 mapeou centenas de oportunidades de formação e captação para organizações da sociedade civil (OSCs) brasileiras fortalecerem seu desenvolvimento institucional (DI). Vários indicadores mostram aumentos significativos em relação ao ano anterior. Em função das mudanças de metodologia desta edição, que ampliou a capacidade de coleta de informações, as oportunidades de captação observadas, por exemplo, cresceram 270%, e iniciativas do poder público nessa direção entraram de vez no mapa. São avanços reais para quem se preocupa com o fortalecimento das OSCs e merecem nossa celebração.

Um número, porém, chama atenção: 88% das oportunidades de captação voltadas ao DI usam editais para divulgação do processo e seleção dos apoiados.

O estudo não entra no detalhe do mecanismo, é verdade. Mas se valer o que costuma acontecer no setor, temos uma hipótese: editais tendem a exigir capacidade técnica prévia considerável. Demandam projetos, teorias de mudança, relatórios, orçamento e cronograma detalhados, histórico comprovado, documentação em ordem. Um mínimo de estrutura que a maioria das OSCs brasileiras não tem.

Se essa análise estiver mesmo que parcialmente correta, caímos em um grande dilema. O recurso reservado para DI das OSCs é acessado principalmente por quem já tem uma organização mais desenvolvida. Isso o mantém distante do alcance de quem mais precisa desse apoio.

Quem não acessa o recurso tende a ser aquela organização pequena, com baixa estrutura ou formalização incompleta, de regiões e causas muitas vezes marginalizadas, com lideranças voluntárias e poucos recursos para elaborar boas submissões.

Para avançar, há muito o que pode ser feito. Que os estudos da Conjunta e de outros pesquisadores avancem no entendimento dessas questões, de forma mais qualitativa. O que os editais de DI realmente exigem? Quem de fato os acessa, e quem é selecionado? O que acontece com as organizações apoiadas depois que o financiamento termina?

Para os financiadores, fica a reflexão: até que ponto o edital é mecanismo de inclusão e redução de desigualdades? Há um pressuposto de transparência, abertura e jogo limpo em editais, que teriam regras claras e evitariam favorecimentos. Editais, supostamente, privilegiam critérios técnicos em detrimento de relacionamentos e privilégios.

Mas podemos combinar essa visão mais meritocrática dos editais com outros esforços: critérios mais inclusivos; preferências por certas áreas, públicos ou temáticas subfinanciadas; busca ativa e capacitação para elaboração de propostas; mais peso a aspectos substantivos, como a causa, legitimidade e mérito, e menor ênfase em exigências formais e na excessiva sistematização de processos.

Há alguns poucos financiadores que já caminham nesse sentido. Ainda são minoria. Que cada vez mais editais inclusivos e processos simplificados, transparentes e cuidadosos se tornem prática comum na relação entre OSCs e apoiadores.

Artigo publicado originalmente no Estudo Panorama Conjunta 2025–2026: Oportunidades de formação e captação de recursos para o desenvolvimento institucional das OSCs no Brasil, realizado pela Plataforma Conjunta.

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