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Censo GIFE: Investimento Social Privado chega a R$ 5,8 bilhões

O Censo GIFE chegou à sua 12ª edição consolidado como o principal instrumento de leitura do Investimento Social Privado (ISP) no Brasil. Realizado com a participação de 138 organizações, o equivalente a 84% da base associada ao GIFE, o levantamento reúne dados sobre volume de recursos, temas prioritários, modalidades de apoio e práticas de financiamento. Para profissionais de captação de recursos, o estudo oferece um panorama direto sobre onde estão os recursos privados, como são alocados e quais tendências devem orientar estratégias nos próximos anos.

Em 2024, o ISP brasileiro alcançou o segundo maior valor da série histórica. “A gente chegou a R$ 5,8 bilhões. É um número que extrapola, exceto o ano de 2020, que foi o ano da Covid e teve uma curva realmente discrepante, e acaba sendo o maior número da nossa série histórica e ficando acima em R$ 400 milhões em relação a 2023 e 500 milhões em relação a 2022, que foi o último ano referência de pesquisa do nosso último Censo GIFE. Isso já atualizado pelo IPCA”, afirmou a coordenadora de Conhecimento do GIFE, Patrícia Kunrath, durante o evento de lançamento do Censo. A maior parte dos recursos, R$ 3,2 bilhões, foi aportada por institutos e fundações empresariais, que responderam por 55% do total investido no período.

Um dado que chama atenção nesta edição do Censo é o crescimento das organizações independentes, que ultrapassaram pela primeira vez a marca de R$ 1 bilhão investido em um único ano. Isso indica que há novos arranjos de financiamento social surgindo, muitas vezes desvinculados de empresas ou de estruturas familiares tradicionais, o que traz novas perguntas para o campo sobre governança, estratégia e impacto.

O estudo também confirma a alta concentração do investimento social privado: organizações que investem acima de R$ 50 milhões por ano são responsáveis por 78% do volume total. Trata-se de um traço estrutural do ISP brasileiro, que reforça a relevância de estratégias de relacionamento qualificadas com grandes financiadores, ao mesmo tempo em que impõe limites à diversificação das fontes de recursos para o campo social.

O avanço do grantmaking 

Do ponto de vista das organizações da sociedade civil (OSCs), o crescimento do grantmaking (modelo no qual institutos e fundações não executam diretamente os projetos, mas repassam recursos para OSCs que têm experiência no território ou domínio técnico sobre determinado tema) aparece como um dos sinais mais relevantes do Censo. Em 2024, 83% das organizações participantes apoiaram OSC, e 72% realizaram repasses financeiros diretos. O volume destinado a essas organizações chegou a R$ 1,3 bilhão, representando o maior patamar fora do contexto excepcional da pandemia. 

Os dados indicam uma disposição crescente dos investidores em operar por meio de parceiros locais e especializados, reconhecendo o papel das OSC na execução das ações e na conexão com os territórios. No entanto, o formato desses repasses continua revelando tensões históricas da filantropia brasileira. Uma parcela significativa dos apoios permanece limitada a ciclos curtos de financiamento: 41% dos recursos foram destinados a iniciativas com duração de até um ano. Esse padrão reforça a instabilidade financeira vivida por grande parte das OSC, que precisam renovar continuamente seus financiamentos, muitas vezes dedicando mais tempo à busca por recursos do que ao aprimoramento de suas atividades.

O estudo também mostrou que há baixa participação do apoio institucional livre, que representou apenas 17% dos recursos destinados às OSC. A predominância do financiamento restrito, voltado a projetos específicos, segue dificultando o fortalecimento das capacidades organizacionais, a retenção de equipes e o investimento em estruturas administrativas e de governança. Para profissionais de captação, o Censo oferece argumentos para qualificar o diálogo com financiadores, especialmente aqueles que já operam com grantmaking recorrente, no sentido de avançar para modelos de apoio mais flexíveis e duradouros.

Incentivos fiscais e a lógica híbrida do financiamento

O uso de incentivos fiscais voltou a ganhar força em 2024, após a retração observada nos anos mais críticos da pandemia. Segundo o Censo, R$ 877 milhões foram investidos por meio desses mecanismos, o que corresponde a 15% do total do ISP. Um terço das organizações participantes declarou utilizar incentivos fiscais, com maior concentração entre empresas e institutos empresariais.

A Lei Rouanet segue como o principal mecanismo adotado, tanto em volume quanto em número de usuários, mas o levantamento indica que o uso de incentivos não substitui o investimento direto: em geral, ele se soma a outras formas de financiamento, compondo uma lógica híbrida de apoio. Para as OSC, esse cenário impõe desafios adicionais, como a necessidade de cumprir requisitos legais, prestar contas de forma rigorosa e adaptar suas propostas às regras dos diferentes mecanismos. Ao mesmo tempo, amplia o leque de possibilidades para organizações que conseguem estruturar projetos alinhados a esse tipo de financiamento.

Educação segue no centro do investimento

A educação continua sendo o principal destino dos recursos do ISP, concentrando mais de R$ 2,1 bilhões investidos em 2024. Embora o tema venha apresentando redução gradual de participação relativa ao longo dos anos, ele permanece no centro das prioridades da filantropia institucional, especialmente entre institutos empresariais e organizações familiares.

Ao mesmo tempo, o Censo aponta a diversificação temática do investimento, com crescimento em áreas como meio ambiente, justiça social, equidade racial e desenvolvimento territorial. Esse movimento dialoga com agendas da filantropia global e amplia as possibilidades de atuação para OSC que trabalham de forma interseccional ou em territórios específicos.

Emergência Climática: 6% do investimento voltado para o clima

Na primeira vez que o Censo dedica um recorte específico ao investimento em clima, os dados revelaram que R$ 368 milhões foram alocados para esse tema em 2024, correspondendo a 6% do volume total investido. 63 organizações manifestaram ter algum tipo de atuação direta ou indireta no tema das mudanças climáticas. 

Gustavo Bernardino, gerente de programas e práticas da filantropia do GIF, destacou a significância desse número. “Ao todo, a gente capturou aqui R$ 368 milhões para o tema de clima e mudanças climáticas, o que corresponde a 6% do total imobilizado”. Para efeito de comparação internacional, dados da ClimateWorks Foundation revelam que a filantropia global investe apenas 3% do seu volume em clima. A atuação do setor em clima concentrou-se primordialmente em educação ambiental e mobilização comunitária, seguida de justiça climática e reparação, além de adaptação e resiliência a eventos climáticos extremos.

Para o secretário-geral do GIFE, Cássio França, os dados do novo Censo evidenciam um amadurecimento do ISP brasileiro. “Eu estou convencido que esse campo mudou para melhor. Temos muita coisa para fazer ainda, mas se a gente comparar como era o Investimento Social Privado, há duas décadas ou três décadas, quando estava só começando, a gente avançou”.

O Censo GIFE 2024-2025 está disponível para leitura neste link.

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