O cenário geopolítico internacional tem trazido impactos diretos para o financiamento de organizações da sociedade civil (OSCs) no Brasil. Foi esse o tema central da Plenária 5 do Festival ABCR 2025, que reuniu especialistas para discutir os efeitos dos cortes em fundos de cooperação, especialmente dos Estados Unidos, e os riscos associados à crescente fragilização do espaço cívico em diversos países. Com mediação de Ana Flavia Godoi, conselheira da ABCR e cofundadora da Conexão Captadoras, a mesa teve participação de Carolina Ricardo (Instituto Sou da Paz), Samantha Federici (ACNUR) e Paula Fabiani (IDIS).
A política externa americana e os impactos no Brasil
Carolina Ricardo abriu o debate destacando os efeitos das decisões do governo Trump sobre o financiamento internacional. Segundo ela, cortes drásticos em agências como a USAID e o National Endowment for Democracy (NED) afetaram diretamente organizações brasileiras. O Instituto Sou da Paz, por exemplo, precisou suspender gastos por dois meses e reduzir a duração de um projeto após incertezas sobre a renovação de contratos com o NED.
“Recebemos a notícia de que talvez não tivéssemos mais recursos para arcar com o financiamento já celebrado com o NED. Isso nos obrigou a suspender gastos e, posteriormente, reduzir o projeto que iria até 2026. E o mais grave: o portfólio do NED no Brasil foi fechado”, relatou Carolina.
Ela também chamou atenção para um movimento de criminalização das OSCs, impulsionado por campanhas nas redes sociais que acusam organizações financiadas por agências americanas de interferência em eleições e promoção de pautas como gênero e raça. “Houve até proposta de uma CPI para investigar as ONGs que recebem esses recursos. Isso mostra um processo de fechamento do espaço cívico”, alertou.
A crise de financiamento no ACNUR
Samantha Federici, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), relatou os efeitos imediatos da reestruturação orçamentária anunciada em fevereiro deste ano. “A gente congelou viagens, compras e aquisições de itens críticos como fraldas e kits de emergência. A economia foi de cerca de 8 a 9% do orçamento global, mas isso significou deixar de atender populações em vulnerabilidade”.
Em 2024, o ACNUR respondeu a 43 emergências humanitárias ao redor do mundo — um número que revela o ritmo exaustivo e a crescente complexidade das crises globais. “É quase como se estivéssemos lidando com uma nova emergência a cada semana”, disse. Ao mesmo tempo, o número de pessoas que precisam de proteção internacional mais que dobrou na última década, ultrapassando a marca de 122 milhões de indivíduos deslocados por guerras, perseguições e desastres climáticos.
Apesar desse aumento expressivo nas necessidades, o orçamento da agência não acompanhou esse crescimento. “Nossa previsão é terminar o ano com o mesmo nível de financiamento de 10 anos atrás. É como fazer muito mais com muito menos”, explicou a representante do ACNUR, reforçando que o déficit orçamentário não é um problema contábil, mas humanitário: significa menos kits de higiene, menos tendas, menos itens básicos para quem perdeu tudo.
Ela também alertou para o impacto direto no Brasil, onde a agência estima conseguir atender apenas 40% da demanda atual. “Isso significa que mais de 130 mil pessoas que poderiam ser atendidas não serão”, afirmou. Entre as populações mais afetadas estão migrantes e refugiados em situação de vulnerabilidade, como os venezuelanos em Roraima, que dependem da continuidade da Operação Acolhida, desenvolvida em parceria com o governo brasileiro.
Samantha disse que o corte de verbas não se restringe aos Estados Unidos. “Não é só os Estados Unidos. Outros doadores também anunciaram cortes”, disse. Governos europeus e fundações privadas estão revendo seus orçamentos, em parte para redirecionar verbas para áreas como segurança e defesa. Como consequência, o ACNUR precisou iniciar um processo de revisão estrutural global, que pode levar à redução de operações, reestruturação de equipes e até à saída de determinados países onde hoje atua. “Estamos tentando renegociar contratos com fornecedores e ajustar operações no campo para evitar problemas graves de caixa”, completou.
A dirigente também alertou para um desafio extra: a maioria dos recursos que a agência ainda recebe vêm com restrições rígidas de uso. Por isso, destacou a importância de doações flexíveis, que permitem respostas rápidas em cenários imprevisíveis. “O que precisamos agora é diversificar fontes e buscar recursos flexíveis. E nisso, os indivíduos têm um papel fundamental. Eles oferecem justamente esse tipo de apoio mais ágil e adaptável”, defendeu.
O medo nas fundações e os riscos da dependência
Paula Fabiani, CEO do IDIS, compartilhou percepções colhidas no Global Philanthropy Forum. “Nunca vi tanto medo. Fundadores com receio de se posicionar, de perder isenções fiscais. Está em discussão até o fim do 501(c)(3), que garante benefícios para receber doações”. O 501(c)(3) é uma seção do código tributário dos Estados Unidos que concede isenção fiscal a organizações sem fins lucrativos e permite que doações feitas a essas entidades sejam dedutíveis do imposto de renda dos doadores. Um eventual fim desse benefício colocaria em risco o modelo atual de financiamento da filantropia americana, com repercussões em escala global.
Paula apresentou dados da SITAWI, que realizou pesquisa com 37 OSCs afetadas pelos cortes. O impacto estimado é de mais de R$ 200 milhões, representando 34% do orçamento total previsto para 2025 dessas organizações. “Organizações menores chegaram a perder mais de 50% do orçamento. É uma situação devastadora”. O mapeamento indicou que até março de 2025 171 colaboradores já haviam sido desligados e outros 368 estavam sob risco de demissão. Apenas 23% das organizações tinham plano de contingência e quase metade tinha reservas financeiras para, no máximo, três meses.
A saída para este cenário, segundo Paula, passa por diversificação de fontes e fortalecimento institucional. “A concentração em um único doador é um risco que nenhuma organização deveria correr. Fundos patrimoniais também são importantes: eles dão poder e liberdade de ação”. Ela também destacou a necessidade de confiança nas relações de financiamento. “A confiança deve ser a base de uma nova filantropia. O modelo da Mackenzie Scott, com doações não-restritas e foco no fortalecimento das organizações, é um bom exemplo”.
Polarização política e o papel da comunicação
As participantes também chamaram atenção para um fenômeno crescente: a politização das agendas sociais, especialmente em temas como gênero, raça e direitos humanos. Carolina Ricardo apontou que há uma construção deliberada de discursos que associam o trabalho das organizações da sociedade civil a uma suposta agenda ideológica, criando obstáculos não apenas para o financiamento, mas para a própria legitimidade da atuação social. “Hoje, trabalhar com meninas é visto por muitos como uma pauta ideológica”, alertou.
Carolina ressaltou que esse movimento é parte de uma lógica mais ampla de disputa política, impulsionada por governos de perfil autocrático. “A gente precisa ler o que está acontecendo também à luz da política. É um movimento político, e a gente precisa entender o que está por trás disso”. Ela defendeu que as organizações ajustem suas estratégias de comunicação, não para esconder suas pautas, mas para evidenciar que o trabalho realizado tem como finalidade melhorar a qualidade de vida da população, garantir direitos e promover justiça social. “A gente vai ter que começar a contar diferente o que a gente faz. Já era assim quando a gente pensa em captar, né? A gente brinca que tem que envelopar de outro jeito”.
Carolina também fez um alerta sobre a falta de mobilização da filantropia brasileira diante da crise internacional de financiamento. Ela afirmou que, apesar da gravidade do momento, ainda não há um senso de urgência ou uma articulação coordenada no país para lidar com os efeitos dos cortes. “Ainda não acordamos para isso. Precisamos fomentar grupos de doadores, levar essa sensibilização adiante e apoiar as organizações que estão perdendo recursos”. Segundo ela, a filantropia brasileira poderia exercer um papel mais ativo, não apenas reconhecendo os impactos dos cortes internacionais, mas também atuando coletivamente para mitigar esses efeitos, por exemplo, com aportes emergenciais, estímulo à criação de fundos patrimoniais e construção de redes de apoio entre financiadores.
Na mesma linha, Ana Flavia Godoi enfatizou que compreender o cenário geopolítico e suas consequências para a captação internacional não significa recuar. “Não significa paralisia. Significa conversar melhor com nossos doadores, com mais consciência e informação”. É preciso que as organizações estejam atentas ao contexto, leiam as notícias internacionais, conheçam os casos e saibam argumentar com base em dados e evidências. “Quanto mais consciência a gente tem do que está acontecendo e de como precisamos nos posicionar, melhor é o nosso discurso e diálogo com os doadores”, completou.
A hora de se reinventar
Apesar do diagnóstico preocupante sobre o financiamento internacional e o fechamento do espaço cívico, as participantes encerraram a plenária com uma mensagem de esperança e de mobilização. Paula Fabiani destacou que, diante de um cenário global de retrocessos, o Brasil ainda mantém condições institucionais que permitem a atuação da sociedade civil organizada. Ela compartilhou a percepção que teve ao participar do Global Philanthropy Forum, onde percebeu um reconhecimento internacional da resiliência brasileira.
“Todo mundo olhando para mim: ‘Nossa, você é do Brasil? Vocês têm muito a nos ensinar’. Isso nunca tinha acontecido.” Para Paula, essa imagem positiva pode ser uma oportunidade estratégica, especialmente diante de eventos como a COP30, que acontecerá em Belém. “Somos uma potência ambiental, um país pacífico. Temos tudo para avançar, mas precisamos nos reinventar”. O chamado final foi para que organizações, financiadores e profissionais da captação se articulem, inovem e colaborem com coragem, preparando-se para construir novas bases de sustentabilidade e legitimidade para o campo social brasileiro.
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Texto publicado pela Captamos, editoria da ABCR de conteúdos aprofundados sobre mobilização de recursos para causas