Um levantamento inédito sobre o impacto econômico da Lei Rouanet indica que os projetos culturais apoiados pelo mecanismo movimentaram R$ 25,7 bilhões na economia brasileira em 2024, considerando efeitos diretos e indiretos. Realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) com o Ministério da Cultura, a pesquisa traz dados que ajudam a qualificar o diálogo de organizações culturais com financiadores, ao demonstrar, com evidências, a capacidade desses projetos de gerar impacto econômico, social e territorial.
A líder do GT de Cultura da ABCR, Sandra Helena Pedroso, avalia que os dados mostram a importância da cultura para a economia e o desenvolvimento do país. “Sem esquecer o quanto ainda precisamos valorizar os profissionais que trabalham na cultura, que acabam sendo invisíveis, pois o fomento ou execução de projetos não é contínuo”.
Para organizações da sociedade civil (OSCs) que atuam com cultura, os números reforçam um ponto central da captação de recursos: o investimento cultural produz retornos mensuráveis, tanto para os territórios quanto para o poder público e para a cadeia produtiva envolvida. O estudo mostra que a Lei Rouanet não se limita ao financiamento da produção cultural, mas ativa economias locais, gera empregos e amplia a arrecadação tributária, dimensões cada vez mais demandadas por financiadores privados e institucionais.
De acordo com o levantamento, R$ 5,8 bilhões do total movimentado em 2024 estão associados à execução dos projetos (ótica da oferta), enquanto R$ 19,9 bilhões resultam dos gastos do público participante (ótica da demanda). O dado evidencia que projetos culturais bem estruturados extrapolam o orçamento captado e desencadeiam efeitos econômicos mais amplos, argumento relevante para processos de captação baseados em impacto.
Cada R$ 1 investido gera R$ 7,59 na economia
Um dos principais indicadores apresentados é o Índice de Alavancagem Econômica, que mede quanto a economia se movimenta a partir de cada real gasto na execução dos projetos. Em 2024, o índice alcançou R$ 7,59 para cada R$ 1 investido. O cálculo considera os recursos captados via Lei Rouanet, outras fontes de financiamento e os gastos do público, oferecendo um dado objetivo que pode ser utilizado por captadores e captadoras na prestação de contas, na construção de narrativas de impacto e na negociação com financiadores interessados em eficiência do investimento social.
“Em todos os estudos que tenho feito, principalmente em minha tese de Doutorado, cada vez mais avalio que esse (a Lei Rouanet) é um mecanismo muito importante, mas precisamos buscar novas estratégias para dar continuidade aos trabalhos executados pelas OSCs, afinal elas chegam onde a política pública não chega ou é complementar”, indica Sandra.
Geração de empregos e retorno fiscal
O impacto também se expressa no mercado de trabalho. Os projetos que realizaram gastos em 2024 foram responsáveis pela criação ou manutenção de 228 mil postos de trabalho diretos e indiretos em todo o país. Além disso, a movimentação econômica gerada pelos projetos resultou em R$ 3,9 bilhões em tributos municipais, estaduais e federais. Para financiadores, esse dado reforça a compreensão da cultura como área estratégica de investimento, com retorno fiscal concreto ao Estado e efeitos sistêmicos na economia.
Descentralização e alcance territorial
Embora a região Sudeste concentre o maior volume de recursos movimentados (R$ 18,4 bilhões em 2024), o estudo aponta avanços na descentralização territorial do incentivo. Entre 2018 e 2024, as regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste apresentaram crescimentos proporcionais significativos no volume de investimentos, o que amplia o repertório de argumentos para OSCs culturais que atuam fora dos grandes centros e buscam dialogar com financiadores sobre impacto regional e redução de desigualdades territoriais.
Em 2024, os impactos econômicos regionais foram estimados em:
- Nordeste: R$ 1,9 bilhão
- Sul: R$ 4,5 bilhões
- Centro-Oeste: R$ 406 milhões
- Norte: R$ 361,2 milhões
Capilarização dos recursos e fortalecimento de cadeias locais
Outro dado relevante é o perfil dos fornecedores e prestadores de serviço envolvidos nos projetos. A pesquisa indica que micro e pequenas empresas representam cerca de 85,5% dos fornecedores, com predominância de pagamentos de pequeno valor. Esse padrão evidencia a capilarização dos recursos e o fortalecimento de economias locais, aspecto frequentemente valorizado por financiadores interessados em desenvolvimento territorial, inclusão produtiva e impacto comunitário.
Dados como ferramenta estratégica para a captação
Ao identificar que os projetos culturais conseguiram captar, além da renúncia fiscal federal, R$ 579,5 milhões em outras fontes de financiamento, além de R$ 305,2 milhões em apoios não financeiros, o estudo reforça a importância de estratégias de captação diversificadas. Para captadores e captadoras de recursos, os dados oferecem uma base sólida para demonstrar que projetos culturais são capazes de mobilizar múltiplas fontes, gerar impacto comprovável e sustentar relações de longo prazo com financiadores, contribuindo para um debate mais qualificado sobre o financiamento da cultura no Brasil.
Para organizações que querem buscar mais oportunidades de financiamento via Lei Rouanet, Sandra sugere primeiro verificar quem são os possíveis patrocinadores em sua região e buscar um relacionamento com eles. “Também se capacitar e participar de atividades que instrumentalizem essa busca pelos recursos, como o Festival ABCR, o FIFE, o Congresso GIFE, e instituições como a ABONG”.
O estudo completo está disponível neste link.
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Texto publicado pela Captamos, editoria da ABCR de conteúdos aprofundados sobre mobilização de recursos para causas.