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Panorama latino-americano da captação mostra fragilidades comuns e caminhos de inovação

O Festival ABCR 2025 abriu espaço para um olhar regional sobre os desafios da mobilização de recursos. No painel Panorama latino-americano da captação de recursos, especialistas de quatro países, México, Argentina, Costa Rica e Canadá, compartilharam suas visões sobre o futuro da área, semelhanças e tendências que atravessam fronteiras. A mensagem central do encontro foi a de que a captação de recursos para o terceiro setor ainda enfrenta barreiras estruturais, mas também revela espaços para criatividade e reinvenção.

“Um dos maiores desafios que temos é a complicada relação entre os captadores e os conselhos diretores das organizações. Muitas vezes, conselheiros esperam que o profissional traga o dinheiro sozinho, enquanto se mantêm distantes da estratégia”, apontou o mexicano Carlos Madrid. A questão da valorização da profissão apareceu repetidamente. Salários baixos e acúmulo de funções — em especial a expectativa de que um mesmo captador cuide também das redes sociais — contribuem para a rotatividade. “Os jovens ficam três ou quatro anos em uma causa e saem porque o mercado paga melhor. Isso compromete a continuidade das relações de confiança com os doadores”, completou Madrid.

Se a precarização da carreira é uma realidade, mostraram que a sofisticação da filantropia também já é visível. O costarriquenho Victor Naranjo destacou como empresas e famílias de alto patrimônio têm buscado maior profissionalização. “Estudem seus doadores, essa é a minha mensagem. Cada pessoa e cada empresa são diferentes. Não generalizem. Eles não querem perder tempo com organizações que não estão alinhadas com suas causas”, afirmou. Segundo ele, entender os “grupos de pertencimento” segue sendo essencial: “Somos tribais. Existem tribos da indústria, da agricultura, dos grupos religiosos ou de universidades. As pessoas são influenciadas por quem respeitam”.

Modelos internacionais não são receita pronta

A canadense Ligia Peña chamou atenção para a necessidade de olhar para além do mito de que os modelos do Norte são perfeitos. “É mentira dizer que basta copiar o que se faz no Canadá ou nos Estados Unidos. Cada país precisa construir seu próprio caminho”, afirmou. Apesar de o terceiro setor canadense empregar 14% da população, proporção maior do que a da indústria da construção, o cenário não é livre de contradições: salários 13% abaixo da média, concentração de mulheres (70% da força de trabalho) e envelhecimento da mão de obra, com baixa entrada de jovens.

Segundo ela, a insegurança econômica aumenta o conservadorismo nas doações, mas também abre espaço para inovação. “Em tempos difíceis surgem criatividade e novas soluções. É nesse momento que precisamos imaginar coisas que nunca foram pensadas antes”.

Falta de dados e instabilidade econômica

A argentina Norma Galafassi abordou a escassez de informações confiáveis sobre o setor na região. “Nos Estados Unidos, os relatórios são completos. Na América Latina, temos enormes lacunas. As pessoas ainda doam menos de 0,1% de sua renda, inclusive em lugares com potencial muito maior”, alertou.

O relatório Generosidade na América Latina e Caribe, do Giving Tuesday LAC, confirma essa percepção: a região reúne 662 milhões de pessoas, cerca de 8% da população mundial, mas segue entre as menos estudadas em termos de filantropia. Apenas alguns países, como Brasil, México, Argentina e Chile, possuem dados mais estruturados, enquanto outros 13 sequer aparecem nos principais levantamentos internacionais. Sub-regiões inteiras, como o Caribe, permanecem praticamente invisíveis.

Essa ausência de dados, aponta o documento, tem consequências diretas: dificulta a formulação de políticas públicas, reduz a capacidade de atrair investimento social internacional e invisibiliza práticas culturais de generosidade que fazem parte do cotidiano das comunidades.

Norma também destacou um desafio estrutural na região: a maioria dos profissionais de captação são mulheres, geralmente bem qualificadas, mas ainda subvalorizadas. “Somos mão de obra barata. A rotatividade é enorme porque muitas não permanecem tempo suficiente nas organizações diante das condições precárias”. O quadro se agrava em meio à instabilidade econômica. Inflação e desvalorização cambial reduzem o poder aquisitivo e afetam diretamente a disposição para doar, mesmo em países onde existe uma forte cultura de solidariedade.

O fim do apoio da USAID foi apontado como um divisor de águas para organizações latino-americanas. Nesse contexto, as remessas enviadas por migrantes surgem como um campo de captação. Madrid relatou que universidades e ONGs já abriram escritórios em cidades norte-americanas com grandes comunidades latinas, como Los Angeles e Chicago, para se conectar a esse potencial. Norma destacou que esse movimento dialoga com características já observadas em pesquisas sobre doadores: pessoas em situação de diáspora, com forte inclinação religiosa e alto grau de felicidade costumam ser as que mais doam.

Tecnologia e colaboração 

Sobre o futuro das doações digitais e colaborativas, Victor Naranjo ressaltou que a tecnologia, por si só, não é suficiente. “Ela é apenas uma ferramenta. O que precisamos é de uma mudança de mentalidade, mais abertura para alianças com empresas e governos”, defendeu.

Na sequência, Ligia Peña trouxe o exemplo do Canadá, onde métodos tradicionais continuam fortes. “O envio de cartas ainda é uma das formas mais populares de captação”, contou. Mas ela observou também novas tendências, como o crescimento das doações testamentárias, que vêm ganhando espaço.

Já Norma Galafassi apontou um obstáculo específico na região latino-americana: a dificuldade de cooperação. Segundo ela, a competição entre organizações e a falta de cultura de trabalho em equipe ainda limitam o potencial das iniciativas conjuntas.

Mesmo diante das dificuldades, os palestrantes ressaltaram que a região é terreno fértil para a inovação. A profissionalização de empresas e famílias doadoras, a criatividade que aparece em momentos de crise e o aproveitamento de novas fontes são como sinais de vitalidade. 

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