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Relatório aponta financiamento como principal desafio das organizações brasileiras

A sustentabilidade financeira segue como o principal ponto de tensão para as organizações da sociedade civil no Brasil. É o que revela o Panorama das ONGs: Capítulo Brasil, integrante do World Giving Report 2025, produzido pela Charities Aid Foundation (CAF) em parceria com o IDIS. A pesquisa ouviu 170 organizações brasileiras entre março e junho de 2025 e traça um retrato detalhado da saúde do setor.

De acordo com o levantamento, 81% das organizações brasileiras apontam a sustentabilidade financeira como um dos três desafios mais urgentes, percentual praticamente alinhado à média global (80% citaram desafios financeiros em geral). A dificuldade não se resume à captação em si, mas envolve a qualidade e o perfil dos recursos disponíveis, o aumento da concorrência por doações e contratos e o equilíbrio entre verbas restritas e irrestritas.

Fontes de receita 

O relatório identifica que, em média, as organizações brasileiras contam com 3,9 fontes diferentes de financiamento, número ligeiramente superior à média global (3,8). A diversidade é considerada um fator de resiliência, pois reduz a dependência de um único financiador. Entre as fontes mais presentes no Brasil estão doadores individuais (88%), doações e parcerias com empresas (85%), financiadores não governamentais (75%) e  financiamento e contratos governamentais (59%).

Apesar da diversidade, a estrutura dos recursos ainda impõe limitações. O estudo mostra que 68% do financiamento recebido pelas organizações brasileiras é classificado como restrito, ou seja, vinculado a projetos ou finalidades específicas. Apenas 32% são recursos irrestritos, que podem ser utilizados para despesas institucionais, fortalecimento organizacional ou resposta a imprevistos.

Quando questionadas sobre o quão confiante estão de que suas fontes de receita são diversas o suficiente para lidar facilmente com quedas repentinas, 52% das organizações se declaram “muito confiantes” ou “bastante confiantes” na diversidade de seus financiamentos. Ainda assim, 27% afirmam estar “não tão confiantes” ou “nada confiantes”.

Perspectivas sobre o futuro

Os dados indicam que as lideranças têm mais confiança no futuro de suas próprias organizações do que no futuro do setor como um todo. Quando perguntadas sobre o futuro da sua organização, 36% se dizem muito otimistas e 48% otimistas, totalizando 84% de percepção positiva, enquanto apenas 3% se declaram pessimistas e 12% adotam posição neutra. 

Já em relação ao futuro do setor em geral, o nível de entusiasmo diminui: 16% se dizem muito otimistas e 50% otimistas (66% no total), enquanto 27% se posicionam como neutras e 5% pessimistas. O contraste revela uma percepção mais favorável da própria capacidade institucional do que da conjuntura sistêmica do terceiro setor no país.

Contextos e Parcerias

O capítulo Contexto e Parcerias revela um setor que se percebe estrategicamente atento ao ambiente em que atua e fortemente ancorado em redes de colaboração. Segundo os dados, 33% das organizações afirmam ter muita clareza sobre oportunidades e ameaças futuras e 54% dizem ter clareza razoável, totalizando 87% com percepção positiva sobre sua leitura de contexto. Essa consciência estratégica também aparece na compreensão sobre os diferentes perfis de doadores: 24% avaliam que entendem muito bem essa percepção e 47% razoavelmente bem.

No relacionamento com o próprio terceiro setor, 23% classificam suas redes como muito fortes e 45% como razoavelmente fortes. Quando se trata de conexões com outros setores, como empresas e poder público, 16% consideram essas parcerias muito fortes e 47% razoavelmente fortes. O dado mais expressivo, porém, está na centralidade do setor empresarial: 68% afirmam que as parcerias com empresas são muito importantes para o alcance de seus objetivos e outros 18% as consideram razoavelmente importantes. Trata-se de um reconhecimento explícito da interdependência entre agendas sociais e investimento privado.

A relação com o poder público aparece como um ponto de complexidade. Quando questionadas sobre a influência geral do governo sobre o setor, 51% classificam como neutra, entendendo que há aspectos positivos e negativos. Apenas 17% veem influência positiva, enquanto 21% a percebem como negativa ou muito negativa. Ainda assim, há consenso sobre a dependência estatal das organizações: 55% concordam plenamente que o governo depende delas para prestar serviços que não pode ou não quer financiar, percentual superior à média global (26%).

Por fim, a avaliação da regulação é marcada por divisão. Apenas 5% consideram que as organizações são reguladas muito eficazmente e 46% avaliam como bastante eficaz. Por outro lado, 43% entendem que a regulação não é muito eficaz. O resultado aponta para um ambiente regulatório percebido como funcional, mas distante de consenso, especialmente entre organizações mais expostas a exigências legais e contratuais.

Setor resiliente, mas pressionado

Na conclusão, o relatório aponta um cenário de desafios estruturais combinados com sinais de resiliência. Há diversidade de fontes de receita e expansão de redes de colaboração, mas persistem dificuldades relacionadas à qualidade do financiamento, à retenção de profissionais e à necessidade de ampliar recursos irrestritos. O diagnóstico indica que o fortalecimento da cultura de doação, o investimento em desenvolvimento institucional e a ampliação de financiamento flexível são condições centrais para aumentar a estabilidade do setor. 

O estudo completo está disponível em idis.org.br/panorama-das-ongs-estudo-revela-resiliencia-do-terceiro-setor-no-brasil

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