A inteligência artificial (IA) já entrou na rotina de profissionais e organizações da sociedade civil, mas seu uso na captação de recursos ainda passa por uma fase de experimentação, erros e amadurecimento. Em um painel do FIFE 2026 sobre transformação digital, mediado por Flavia Lang, presidente da ABCR, especialistas discutiram de que forma a IA pode apoiar o trabalho de captadores, quais cuidados são necessários e por que o relacionamento humano segue no centro da mobilização de recursos.
A conversa reuniu Daiany França, descentralizadora de recursos, e Felipe Antunes, sócio-diretor da Doare. O ponto de partida do debate foi uma pergunta provocativa: se a IA faz determinadas tarefas todos os dias, o que sobra para o ser humano? Para Daiany, a resposta passa por identificar aquilo que a tecnologia não substitui. “A gente precisa identificar quais são as atividades ou afetos que só o ser humano tem”, afirmou.
Uma das questões centrais do painel foi o estágio atual das organizações no uso da IA. Daiany descreveu três momentos comuns: o encantamento inicial, a frustração e uma etapa posterior de uso mais consciente. No primeiro momento, muitas pessoas acreditam que a ferramenta resolverá todos os problemas. Em seguida, vem a decepção quando a tecnologia não entrega exatamente o que se esperava e que precisa ser compreendida, testada e delimitada.
Felipe também situou o setor em uma etapa de aprendizado. Para ele, pessoas e organizações estão “errando muito” no uso das ferramentas, mas isso faz parte da construção de maturidade. “É importante a gente se expor ao erro, porque através desses erros a gente vai aprender”, afirmou. Na avaliação dele, organizações que já vêm experimentando IA nos últimos anos começam a alcançar outro patamar de uso. Esse amadurecimento, porém, não depende apenas de acesso a ferramentas. Depende de governança, documentação, regras internas e capacidade de revisar criticamente o que a tecnologia produz.
Autenticidade como limite e condição de uso
Durante o painel, os especialistas foram unânimes ao afirmar que a inteligência artificial não deve assumir a voz da organização sem mediação humana. Felipe chamou atenção para um erro recorrente: entregar autonomia excessiva à ferramenta e publicar textos, mensagens ou análises sem revisão.
Daiany explicou que o uso de ferramentas generativas exige informações sobre a organização, sua metodologia e seus processos de trabalho. “Os dados que a gente coloca na organização precisam ser sistematizados. Sem essa base, a ferramenta tende a produzir respostas genéricas, pouco conectadas à realidade da organização”. Ela também lembrou que a profissão de captador de recursos ainda enfrenta desconfianças e preconceitos. Se o uso de IA for feito de forma descuidada, com mensagens genéricas, abordagens artificiais ou materiais pouco transparentes, isso pode afetar não apenas uma organização, mas a imagem da área como um todo.
Uma forma de começar o uso de IAs é mapear as grandes atividades da captação, como prospecção, elaboração de projetos, construção de propostas, relacionamento, prestação de contas e gestão de informações. A partir desse desenho, a organização consegue identificar onde a IA pode contribuir de fato.
Esse passo é especialmente importante em organizações menores, que muitas vezes trabalham com equipes reduzidas e acúmulo de funções. Antes de adotar novas ferramentas, pode ser necessário entender melhor os papéis, as responsabilidades, os fluxos de trabalho e os principais gargalos da rotina. Daiany alertou para o risco de maior precarização do trabalho. A promessa de que a IA fará profissionais ganharem tempo pode, na prática, resultar em mais demandas, mais pressão e menos reconhecimento. “A gente não pode ser refém disso e precarizar ainda mais o nosso trabalho, que já é muito precarizado”, defendeu.
Golpes, novas habilidades e relacionamento
Felipe também chamou atenção para os riscos que a IA pode trazer para a relação entre organizações, doadores e parceiros. Com ferramentas cada vez mais sofisticadas, golpes, fraudes e mensagens falsas podem se tornar mais difíceis de identificar, inclusive em abordagens que envolvem doações, pagamentos ou pedidos em nome de instituições. “Ela potencializa também aquilo que tem de ruim”, afirmou.
O uso da IA na captação exige novas habilidades de verificação, leitura crítica e proteção. Não basta saber usar ferramentas ou produzir bons textos: as organizações também precisam criar cuidados para preservar a confiança dos doadores, checar informações e evitar que sua imagem seja associada a práticas automatizadas, inseguras ou pouco transparentes.
Na avaliação de Flavia Lang, o avanço da inteligência artificial pode apoiar a rotina das organizações, mas não muda a natureza da captação de recursos. A tecnologia pode ajudar a organizar informações, qualificar processos, apoiar análises e reduzir parte do trabalho operacional. Ainda assim, a decisão de doar, renovar uma contribuição ou ampliar um apoio segue atravessada por confiança e aproximação. “Captação é relacionamento. E relacionamento é feito entre pessoas. A inteligência artificial pode ajudar em muitas etapas do trabalho, mas ela não substitui a escuta, a confiança e o vínculo que sustentam a relação com o doador. Se a organização perde essa dimensão humana, ela perde também uma parte essencial da captação de recursos”.