No dia de Natal, em que se celebra no mundo a confraternização e a paz humana, compartilhamos artigo de Andrew Watt, presidente da Association of Fundraising Professionals (AFP), organização irmã da ABCR. O texto, publicado na Revista ABCR 15 Anos, reflete sobre o papel transformador que o profissional de captação de recursos tem no mundo e a importância de uma sociedade civil livre. Leitura recomendada para o dia de hoje!
A captação de recursos impactando o mundo
Pense sobre algumas das principais mudanças que ocorreram em tão pouco tempo no Brasil. Crescimento considerável da economia e do PIB. Crescimento nos níveis de educação e na expectativa de vida, em paralelo à redução nas taxas de mortalidade infantil.
O que isso tudo tem a ver com as organizações da sociedade civil (ONGs)? Bem, você pode-se orgulhar dessas mudanças porque você e suas organizações são sem dúvida responsáveis por parte delas. Suas organizações tem estado na linha de frente em muitos desses assuntos. O seu trabalho teve um impacto imenso.
Mas, ainda mais importante, eles são sinais de um país robusto e que cresce. Um povo que tem melhor saúde, mais dinheiro, grandes níveis educacionais – será mais ativo. Mais poderoso. Quer se engajar mais. E quer criar ainda mais impacto!
O engajamento em organizações da sociedade civil é um pilar critico da nossa sociedade livre. Nossa doação, nosso voluntariado – nosso engajamento – não apenas ajuda as pessoas. Ajuda nossos países e nosso mundo. Nos mantém livres e independentes. Define quem somos. Fortalece as ideias de justiça, ética e democracia. E essas não são simplesmente palavras para florear – o engajamento nas organizações e no terceiro setor é real, meios concretos nos quais apoiamos uma sociedade livre e engajada.
Tudo isso acontece quando reunimos as pessoas. O terceiro setor faz as pessoas pensarem sobre o seu mundo, o seu lugar nele e o que elas querem mudar. Fortalece nossas ligações e conexões sociais. Pelo nosso trabalho, as pessoas aprendem sobre os temas mais importantes.
Estou orgulhoso de trabalhar para a profissão da captação de recursos e representar tantas pessoas maravilhosas que estão levantando dinheiro para causas fantásticas pelo mundo. Mas estou ainda mais orgulho do impacto que ajudamos a criar. Ele é muito maior que simplesmente o dinheiro que levantamos, ou mesmo os programas e serviços que entregamos.
Mais e mais, organizações estão liderando a sociedade. Desenvolvendo novas ideias e maneiras de se pensar sobre as coisas. Criando mudança para além de realizarem projetos.
Pense sobre todas as principais iniciativas e campanhas realizadas pelo mundo nos últimos 50 anos. Na maioria delas, quem as liderou? ONGs. Quem foi responsável pelo sucesso na defesa de mudanças de políticas públicas em cada tema possível? ONGs trabalham com praticamente todos os temas agora, incluindo a prevenção da violência, padrões de vida, a economia, a produtividade governamental, reforma da educação e cada tipo de avanço na ciência e tecnologia. Nenhum desses temas são clássicos foco das organizações, e ainda assim eles têm uma grande influência em um grande número de coisas que afetam nossa vida cotidiana.
Mais e mais, pessoas estão vendo o mundo pelo prisma do engajamento. Doação. Filantropia. Como elas encontram as pessoas, se pelo voluntariado ou comunidades online. Como elas gastam o seu tempo. Como determinam o que é importante para elas. Organizações têm um papel de liderança cada vez maior nisso.
Aqui uma outra forma de entender o nosso papel. Considere o que leva alguém a ser solidário. Requer um país onde a criação de riqueza é encorajada e disseminada. Requer um governo que permite a criação de ONGs e cidadãos que têm liberdade para fazer o que quiser com o seu dinheiro.
Essencialmente, a filantropia e o engajamento são expressões básicas da liberdade e dos direitos humanos. E, para muitas regiões, é um indicador do crescimento das liberdades e dos direitos humanos – econômicos, políticos e outros. Mapeie o crescimento da renda individual na Ásia, Oriente Médio, América Latina e mesmo aqui, no Brasil, e pela América do Sul. Pessoas estão ganhando mais dinheiro, o que leva a maior poder politico, econômico e social. E não é nenhuma surpresa que um terceiro setor organizado esteja crescendo nessas áreas também. O link entre liberdade, riqueza, independência e engajamento não pode ser negado.
Esse é o impacto que nós – como setor da sociedade civil – ajudamos a criar. Não é somente pela doação, voluntariado e apoio a causas. Nós damos sustentação a sociedades livres, e o mundo.
Esse é o impacto extraordinário – e o tipo de impacto que os doadores querem. Eles querem ser desafiados. Eles querem ouvir sobre grandes planos e grandes sonhos que mudam o mundo. É esse o primeiro motivo pelo qual eles doam. Eles QUEREM estar próximos às comunidades e criar impacto.
Comunidade e impacto são duas ideias principais que as pessoas estão olhando em sua vida cotidiana: a oportunidade de se aproximar de seus vizinhos e ser parte de algo maior que a si próprio. Eles querem conectar e se engajar com outros, e eles podem fazer isso em uma comunidade, onde trabalhamos juntos para crescer e avançar mais fortes.
E apesar de termos a tendência de pensar no engajamento em ONGs como algo típico e ordinário, às vezes o engajamento é dramático.
Por exemplo, em tempos de revolta social, pessoas recorrem às ONGs e organizações comunitárias. Peguemos as revoltas recentes no Oriente Médio, que se iniciaram em dezembro de 2010. Esses movimentos não teriam ocorrido sem ONGs fazendo crescer a consciência e educando o publico mundial sobre o que estava acontecendo lá, e servindo como um ponto de partida.
Depois de períodos de grande agitação social, ou quando governos estão sendo formados, as pessoas buscam uma forma de se conectar. O Iraque é ainda foco de instabilidade social mais de uma década após a queda de Saddam Hussein. Ainda assim, milhares e milhares de organizações e serviços civis estão emergindo. Por toda a fragmentação que o país tem até hoje, o trabalho de trazer as pessoas mais próximas – usando os padrões e práticas que as organizações usam pelo mundo – está começando.
Aqui no Brasil, um grande exemplo são as políticas públicas. Acredito que essa seja uma das coisas mais importantes que as organizações precisam fazer: encorajar as pessoas a se envolverem mais com o governo. Conversar com os legisladores e reguladores sobre as mudanças necessárias. Educá-los sobre o que as nossas organizações fazem. Educá-los sobre leis que encorajem doação e voluntariado.
Criar um ambiente legal que apoie a captação de recursos e o terceiro setor não é apenas a responsabilidade das organizações da sociedade civil. Os indivíduos que nos apoiam podem ajudar também, colocando pressão para que o governo faça as mudanças necessárias. Políticas públicas e regulação podem ser maneiras importante de fazermos as pessoas se engajarem e fazer a mudança real.
Mas os cidadãos não se engajam dessa maneira a menos que se sintam empoderados. E é por isso que todas as mudanças na América Latina nas últimas décadas são tão importantes. Porque estão empoderando os cidadãos – pessoas ordinárias – a se levantar, a serem ouvidas e se envolverem.
E nossas organizações são uma parte fundamental nesse empoderamento. Nós somos parte do incrível tecido social do país. Nós somos um lugar para se aprender. Para se inspirar. Para se sentir parte de uma comunidade. Para entender o nosso papel no mundo.
Nossas mudanças chegam ao coração do nosso mundo. Nosso impacto reside no sentido do que significa ser um cidadão. De engajar com nossos vizinhos. De ser parte de uma sociedade livre. E de querer fazer o nosso mundo um lugar melhor.
Nós, captadores, somos a profissão que cria a mudança. Pelo simples ato de ajudar um único indivíduo, uma campanha de massa que mobiliza o país e o mundo, não devemos nunca esquecer o impacto incrível que temos quando reunimos as pessoas.
Andrew Watt, Presidente e Diretor Executivo (CEO) da Association of Fundraising Professionals (AFP), atuando na organização desde 2006. De 1993 a 2005 foi membro do Institute of Fundraising, organização britânica que promove a mobilização de recursos na Inglaterra.