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10 tendências que devem marcar a captação de recursos em 2026

Falar em tendências para a captação de recursos em 2026 exige reconhecer um cenário de alta complexidade, com instabilidades políticas, econômicas e climáticas que impactam diretamente o fluxo de doações e investimentos sociais. Ainda assim, a escuta de profissionais com trajetória consolidada no campo permite identificar movimentos consistentes, que já vêm se desenhando e tendem a ganhar força no próximo ano, exigindo das organizações decisões mais estruturadas e planejamento cuidadoso.

Esta matéria reúne contribuições de Rodrigo Alvarez, cofundador da ABCR e fundador da Mobiliza Consultoria; Rafael Vargas, associado ABCR e diretor presidente do Instituto Norte Amazônia de Apoio ao Terceiro Setor (INATS); Flavia Lang, presidente da ABCR e gestora da Tools4Change Brasil; e Vinnicius Ventura, consultor. A partir dessas análises, foi possível sintetizar dez tendências que ajudam a compreender os caminhos que devem orientar a captação de recursos em 2026.

No conjunto, as tendências indicam um ano marcado por maior exigência técnica, fortalecimento institucional e relações de longo prazo. Para as organizações, o desafio será combinar estratégia, previsibilidade e capacidade de demonstrar impacto, em um ambiente no qual confiança e planejamento ganham peso crescente na decisão de quem doa.

1. Inteligência artificial aplicada de forma estratégica à captação

A IA deixa de ser novidade e passa a ser ferramenta operacional: segmentação de doadores, personalização de abordagens, automação de processos e apoio à prospecção. Rodrigo Alvarez, Rafael Vargas e Vinnicius Ventura destacam que o diferencial não estará apenas no uso da tecnologia, mas na qualidade dos dados, nos critérios adotados e na capacidade de integrar IA a CRMs e rotinas já existentes.

“Essa é, provavelmente, a tendência mais consensual. As organizações da sociedade civil devem avançar no uso da inteligência artificial de forma mais estratégica e sofisticada […]. No entanto, a diferença competitiva não estará simplesmente no uso da tecnologia, mas na capacidade de utilizá-la de forma inteligente, com bons prompts, dados qualificados e critérios claros que orientem as recomendações geradas”, afirma Rodrigo.

Rafael pontua que na Região Norte, especialmente em áreas do interior amazônico, em municípios isolados e de difícil acesso, persistem barreiras estruturais relevantes. “A instabilidade da internet, a limitação de equipamentos tecnológicos e a carência de capacitação digital dificultam tanto a participação em editais quanto a adoção de soluções tecnológicas mais avançadas, criando um descompasso entre a tendência nacional e a realidade local”.

2. Retenção de doadores no centro da estratégia

Com custos de aquisição mais altos e doadores mais seletivos, manter, reativar e ampliar o relacionamento com quem já doa se torna prioridade. A lógica do valor vitalício do doador (LTV) aparece com força nas análises de Rodrigo Alvarez e Vinnicius Ventura, reforçando que a régua de relacionamento deixa de ser acessória e passa a ocupar posição central nas estratégias de captação. “Intensificar o relacionamento com doadores já próximos, fortalecendo vínculos e aumentando a fidelização, pode ser decisivo em um ano de maior instabilidade”, alerta Rodrigo.

3. Pix recorrente e jornadas simples de doação

A combinação WhatsApp + Pix + recorrência tende a ganhar escala em 2026. Flavia Lang e Vinnicius Ventura apontam que o Pix recorrente pode ajudar a recuperar previsibilidade nas doações de pessoas físicas, reduzindo fricções e dialogando melhor com hábitos de pagamento já consolidados no Brasil. “De acordo com a Pesquisa Doação Brasil, a doação de pessoas físicas está crescendo, mas a recorrência diminuiu. Essa nova modalidade do Pix pode recolocar a recorrência no centro”, comenta Flavia.

4. Planejamento fino diante de um ano carregado de eventos

Para Flavia Lang, Carnaval, Copa do Mundo e Eleições tendem a estimular campanhas temáticas, mas também ampliam a concorrência por atenção e mídia, pressionando custos e exigindo decisões mais criteriosas. O cenário de 2026 demanda planejamento antecipado e leitura estratégica do calendário, já que ações associadas a esses grandes eventos só se sustentam quando há clareza de objetivos, capacidade de investimento e coerência com a causa defendida. “Precisamos trabalhar muito bem as janelas de oportunidade para potencializar o investimento e trazer mais doadores”, indica Flavia.

5. Transparência e impacto como base da confiança do doador

Prestação de contas clara, indicadores objetivos e narrativas consistentes passam a pesar cada vez mais na decisão de doar. A tendência é destacada por Vinnicius e Rafael Vargas, que apontam a transparência não apenas como exigência legal, mas como estratégia de relacionamento e fortalecimento institucional.

“Em 2026, tende a se expandir a cultura de prestação de contas contínua, clara e acessível, incluindo práticas inovadoras como painéis físicos de transparência em linguagem simples, divulgação periódica de resultados e utilização de sistemas de gestão financeira auditáveis. Ainda assim, a complexidade administrativa permanece como um dos principais desafios, uma vez que a elaboração de relatórios técnicos e financeiros exige conhecimento especializado, profissionais capacitados e investimentos em sistemas adequados, o que nem sempre está ao alcance das OSCs de menor porte”, diz Rafael.

6. Setor público como financiador relevante

Parcerias com o poder público, emendas parlamentares e leis de incentivo seguem como fontes importantes de recursos. Rodrigo Alvarez e Rafael Vargas observam que esse movimento exige maior capacidade técnica, conformidade jurídica e gestão administrativa por parte das organizações. “A tendência é que o governo siga sendo um ator relevante na transferência de recursos para o terceiro setor, exigindo das organizações maior capacidade técnica, institucional e de conformidade”, explica Rodrigo.

7. Clima, emergências e resiliência como agenda transversal

Doações emergenciais e temas ligados às mudanças climáticas continuam mobilizando recursos e atravessando diferentes áreas de atuação. Para Rodrigo Alvarez e Vinnicius Ventura, projetos sociais, culturais ou esportivos tendem a ganhar espaço quando conseguem demonstrar vínculos com adaptação climática, segurança alimentar, saúde e território.

8. ESG mais técnico e com maior participação de pequenas e médias empresas

A agenda ESG avança para além do discurso e passa a exigir métricas, gestão de riscos e impacto mensurável. Vinnicius Ventura e Rafael Vargas apontam o crescimento do investimento social privado por pequenas e médias empresas, tendência já observada em estudos do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE). Segundo Rafael, observa-se que serão privilegiados resultados, indicadores de impacto e transformações sociais concretas. 

9. Colaborações, consórcios e estruturas compartilhadas

Ganha força a organização de OSCs em redes, coalizões e arranjos colaborativos para captação conjunta, compartilhamento de backoffice e aumento de escala. A articulação territorial ou temática permite acessar recursos maiores, reduzir custos operacionais e responder a editais e financiadores que buscam impacto ampliado. A tendência é destacada por Vinnicius Ventura como caminho de eficiência e sustentabilidade, especialmente para organizações de pequeno e médio porte.

10. Desenvolvimento institucional como prioridade de financiamento

Cresce o entendimento, entre financiadores, de que apoiar apenas projetos não garante sustentabilidade. O financiamento para despesas institucionais, equipe, gestão, comunicação, tecnologia e governança, tende a ganhar espaço em editais e grants, desde que bem justificado. A leitura é feita por Vinnicius Ventura.

Leia também: O que os doadores querem ouvir: mais impacto, menos promessas vazias

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