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Apesar da urgência, captação para equidade de gênero enfrenta falta de investimento estrutural no Brasil

A violência contra meninas e mulheres segue em níveis alarmantes no Brasil. Dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que em 2025 o país registrou 1.568 vítimas de feminicídios, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado na legislação brasileira, o que representa cerca de quatro mulheres assassinadas por dia em razão de gênero. Ainda assim, organizações que trabalham na prevenção da violência de gênero enfrentam dificuldades para acessar financiamento consistente e de longo prazo. 

Para Amanda Sadalla, diretora da organização Serenas, há um descompasso entre a gravidade do cenário e o volume de recursos destinados à pauta. “O cenário de financiamento de equidade de gênero e enfrentamento à violência contra mulheres e meninas no Brasil é completamente contraditório e vai completamente na contramão do cenário de violência de gênero e desigualdade de gênero que assola o nosso país. Se por um lado a gente está falando de uma mulher morta a cada sete horas no país e uma menina sendo estuprada a cada seis minutos, menos de 2% do financiamento do investimento social privado vai para essa temática no país. Ou seja, não faz absolutamente o menor sentido”.

De acordo com o policy brief Where next for feminist foreign policy on funding feminist movements?, publicado pelo Overseas Development Institute (ODI), movimentos feministas e organizações de direitos das mulheres recebem menos de 1% do financiamento filantrópico global, apesar de terem desempenhado um papel central na conquista de direitos civis, sociais e legais ao longo das últimas décadas. Ao mesmo tempo, o relatório chama atenção para o crescimento do financiamento de movimentos contrários à equidade de gênero. Entre 2008 e 2018, redes anti-gênero receberam mais de US$ 6 bilhões para suas atividades, enquanto iniciativas feministas seguem com recursos limitados. 

Segundo o relatório, esse desequilíbrio revela falhas no modelo atual de financiamento internacional e reforça a necessidade de mudanças estruturais nas políticas de cooperação e filantropia. Entre as recomendações estão ampliar o volume de recursos destinados diretamente a movimentos feministas, oferecer financiamentos de longo prazo e com maior flexibilidade e adotar práticas de financiamento baseadas em confiança e participação das próprias organizações na definição das prioridades de investimento.

Nos últimos anos, iniciativas filantrópicas específicas para apoiar movimentos de mulheres têm surgido com o objetivo de enfrentar esse cenário de escassez de recursos, mas ainda são poucas. No Brasil, há o Fundo ELAS+, criado em 2000 para a promoção do protagonismo das mulheres. A organização atua mobilizando recursos de fundações, empresas e doadores individuais para apoiar grupos e organizações que trabalham em temas como enfrentamento à violência de gênero, participação política, justiça racial e direitos sexuais e reprodutivos. Outra iniciativa é o Fundo de Equidade de Gênero da BrazilFoundation, que apoia projetos voltados à promoção dos direitos de mulheres e meninas e ao enfrentamento das desigualdades de gênero no país.

Atuação da Serenas e combate à violência de gênero dentro das escolas

A Serenas é uma organização da sociedade civil dedicada a apoiar políticas públicas voltadas à prevenção da violência contra meninas e mulheres. Atua em duas frentes principais. A primeira está voltada ao sistema educacional, apoiando secretarias de educação no desenvolvimento de políticas voltadas à prevenção da violência de gênero e à promoção de relações saudáveis. 

A segunda frente de atuação é voltada à qualificação de profissionais que atendem vítimas de violência. “Qualificamos agentes da segurança pública, da assistência social, agentes e lideranças comunitárias que realizam um atendimento de vítimas para prevenir o que a gente chama de violência institucional, que é a violência praticada por instituições que deveriam proteger as vítimas”, explica Amanda. Nos últimos anos, a organização ampliou sua atuação em diferentes regiões do país e já impactou 80 mil pessoas.

Uma das apostas da organização é o trabalho preventivo dentro do sistema educacional. Para compreender melhor a dimensão do problema nesse ambiente, a organização realizou uma pesquisa inédita sobre o tema. “A gente ouviu mais de 1.400 pessoas, incluindo professores, gestores de escolas, meninos e meninas”, diz Amanda. Os resultados mostram que manifestações de violência de gênero fazem parte do cotidiano escolar. “70% dos professores falam que ouvem com frequência meninos sexualizando as meninas, 45% deles ouvem comentários dos seus colegas professores sobre o corpo das alunas, 69% ouvem comentários dos professores e colegas sobre o corpo das alunas, ou seja, isso mostra o quanto a violência de gênero está dentro da educação, dentro da escola, e a escola também tem o papel de transformação”.

Segundo Amanda, os dados reforçam a necessidade de integrar o tema às políticas educacionais, especialmente considerando que grande parte do investimento social privado no Brasil está concentrado nessa área. “Por isso falo da importância das fundações da educação, que são as que detêm a maior parte da filantropia no Brasil, se comprometerem com essa pauta”.

Investimentos de curto prazo para mudanças de longo prazo

Na avaliação da diretora da Serenas, o modelo predominante de financiamento também dificulta a implementação de mudanças estruturais. “É importante a gente dizer que os investidores fazem investimentos muito curtos, de pequeno prazo, não flexíveis, e exigem indicadores de mudança de impacto. Ou seja, completamente contraditório”. Ela explica que iniciativas voltadas à transformação cultural exigem tempo e continuidade. “A gente precisa de um investimento de longo prazo, flexível e que entendam que os indicadores de curto prazo são indicadores de processo”.

No caso da Serenas, esses indicadores incluem mudanças institucionais nas políticas públicas e nas práticas pedagógicas. “A curto prazo, o indicador que eu tenho é um governo que passou a implementar dentro do seu programa de meta a prevenção da violência de gênero. A curto prazo, tem um professor que passou a colocar na sua sala de aula a equidade de gênero, que passou a trabalhar na aula de história, a participação feminina, a perspectiva feminina de mulheres na história, que passou a falar sobre direitos de mulheres na aula”.

Já os resultados mais profundos, segundo Amanda, levam mais tempo para se consolidar. “Agora, a longo prazo, Assim, a longo prazo a gente vai ver meninas realmente deixando de entrar em relações violentas, meninos deixando de violentar, mas isso são indicadores de longuíssimo prazo e os investidores eles querem ver esses indicadores de impacto de longuíssimo prazo a curto prazo com recursos que não condizem com esses resultados”.

Investimentos pontuais não mudam estruturas

Outro problema apontado por Amanda é que os recursos disponíveis costumam se concentrar em iniciativas pontuais de atendimento a vítimas, sem alterar as estruturas que sustentam a violência. “Existe um total descomprometimento da iniciativa social privada com essa temática. E quando há investimento, são investimentos pontuais, voltados especialmente para iniciativas de acolhimento pontual de mulheres em situação de violência, sem investimentos sistemáticos, que mudem as políticas públicas para a prevenção das violências e para a qualificação dos serviços públicos de acolhimento à vítima”.

Para ela, esse tipo de investimento não altera estruturalmente o sistema de proteção. Ela também aponta a ausência de investimentos em programas de ressocialização de agressores. “Os homens que agridem as mulheres são presos e quando retornam voltam a agredir as mulheres porque não passam por programas de ressocialização que reduzem a violência”.

Nos últimos anos, casos de feminicídio têm gerado forte mobilização nas redes sociais. Para Amanda, porém, essa visibilidade ainda não se traduziu em mudanças estruturais no financiamento da pauta. “Tenho visto muita mobilização nas redes sociais de pessoas falando da importância de se investir nesse tema, mas eu não tenho visto um movimento da filantropia para esse tema e muito menos um movimento da filantropia educacional para esse tema. Fico me perguntando quando as instituições, as fundações, que carregam os maiores recursos da filantropia do Brasil, especialmente no âmbito da educação, vão de fato se comprometer a colocar esse tema dentro da agenda da educação”, conclui.

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