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Como o dia Dia de Doar se consolidou no Brasil e se tornou referência internacional

Iniciativa liderada pela ABCR desde 2014 impulsiona cultura de doação e cria espaço para campanhas comunitárias

Há mais de dez anos, o Dia de Doar mobiliza organizações, comunidades e doadores em todo o Brasil com o objetivo de fortalecer a cultura de doação no país. Desde 2014, a campanha é liderada pela ABCR, que foi responsável por articular a entrada oficial do Brasil na rede internacional do movimento. Ao longo da última década, a ABCR contribuiu diretamente para que o Dia de Doar se tornasse uma data reconhecida nacionalmente, marcada por centenas de ações descentralizadas e pela participação ativa da sociedade civil organizada.

O Dia de Doar começou no Brasil de maneira informal, antes mesmo da entrada oficial do país na campanha internacional GivingTuesday. Em 2013, o Instituto Doar, recém-lançado por Marcelo Estraviz, ex-presidente da ABCR, promoveu a primeira edição da campanha no país, sem vínculo formal com o movimento global. “Na época, nem sabíamos da existência do GivingTuesday. Lançamos o Instituto Doar, o Selo Doar e o Dia de Doar no mesmo sábado, durante uma feira para ONGs”. 

A conexão com o movimento internacional se consolidou no ano seguinte, já com o envolvimento da ABCR. João Paulo Vergueiro, então diretor da entidade, explica que a ABCR já acompanhava a campanha desde sua origem nos Estados Unidos, em 2012. “A gente até fez uma nota no site sobre o GivingTuesday. Em 2013, entramos em contato com eles e passamos o ano em negociação. Eles pediram referências, queriam saber quem éramos. Só aceitaram oficialmente nossa entrada no início de 2014”. Na época, a novidade foi divulgada no site da ABCR.

A partir daí, o Dia de Doar passou a ser realizado no Brasil de forma alinhada ao calendário global, sempre na primeira terça-feira após o Dia de Ação de Graças, e com o protagonismo da ABCR. Desde o início, a proposta foi permitir que cada organização fizesse a campanha à sua maneira. “Nunca foi um movimento em que a gente falava ‘façam desse jeito’. Sempre dissemos: façam o seu próprio Dia de Doar. Isso ajudou muito a crescer o movimento”, afirma João Paulo.

Crescimento descentralizado e fortalecimento comunitário

Essa liberdade foi também o que permitiu o surgimento de uma das características mais marcantes da campanha no Brasil: as campanhas comunitárias, que hoje chegam a mais de 100 no país. Cidades como Limeira e, principalmente, Sorocaba, em São Paulo, foram pioneiras na mobilização local. “Foi o pessoal da Facens, uma universidade filantrópica, que criou o Dia de Doar Sorocaba. Eles inspiraram outras cidades e depois, com o lançamento do edital de campanhas comunitárias, a gente conseguiu expandir muito”, lembra João Paulo. 

Lançado pela ABCR em 2021, o Edital de Apoio à Filantropia Comunitária foi criado para fortalecer as campanhas comunitárias locais do Dia de Doar e reconhecer lideranças que já vinham promovendo ações voluntárias em suas cidades. Em sua 5ª edição, realizada este ano, o edital destinou R$ 25 mil a 25 iniciativas de todo o país, com R$ 1 mil para cada campanha selecionada, além de mentorias coletivas conduzidas pelo Instituto Phomenta para apoiar as estratégias de mobilização.

Carolina Farias, que liderou o Dia de Doar entre 2021 e 2024, destaca a importância do apoio financeiro às lideranças locais: “Foi uma iniciativa que reconheceu muito as lideranças que estavam se esforçando voluntariamente até então e que acabavam gastando seus próprios recursos para promover o Dia de Doar. Você ter uma iniciativa que oferece a possibilidade deles receberem um recurso para isso é algo muito louvável”.

Para Carolina, o engajamento dessas lideranças é uma grande motivação. “O que mais me motivava pessoalmente sempre foi o empenho voluntário das pessoas que acreditavam tanto quanto eu, ou quanto o pessoal do GivingTuesday, na promoção da cultura de doação no Brasil. A gente tinha lideranças que mobilizavam a cidade inteira, que iam atrás de empresas, gestores públicos para falar sobre a importância da existência do terceiro setor naquele território”.

Ela destaca ainda a força das ações presenciais. Esse contato foi colocado em prática de forma estruturada no projeto Encontros da Doação, lançado em 2022 com o objetivo de fomentar e acompanhar campanhas comunitárias em diferentes regiões do país. A iniciativa promoveu visitas presenciais de Carolina a cidades com potencial de articulação local, como Salvador (BA), Porto Velho (RO), Manaus (AM) e São Luís (MA), apresentando o movimento a novas lideranças, oferecendo mentorias e criando conexões com organizações de base. Em parceria com a Rede Filantropia, os encontros fortaleceram o enraizamento do Dia de Doar em realidades fora do Sudeste, contribuindo para disseminar a cultura de doação em diferentes contextos.

Institucionalização e ações simbólicas

Outra frente de expansão do movimento foi a institucionalização nas cidades. Em diversas localidades, o Dia de Doar passou a integrar o calendário oficial por meio de leis municipais, muitas vezes por iniciativa de vereadores ou grupos da sociedade civil. Em 2019, a ABCR chegou a desenvolver um modelo de projeto de lei para facilitar o reconhecimento da data. Nos últimos anos, a campanha incorporou também ações simbólicas, como a iluminação de monumentos e prédios públicos, inspirada pela iniciativa do Instituto Phi no Rio de Janeiro, que iluminou o Cristo Redentor. “Mais uma das coisas que surgiram sem planejamento central e foram se consolidando”, diz João Paulo.

Referência internacional

Hoje, o Brasil é reconhecido como um dos países mais ativos do mundo no Dia de Doar, com versões adaptadas por temas, públicos e territórios, como o Dia de Doar Kids, o Dia de Doar Fertilidade e o Dia de Doar Órgãos, além de mais de uma centena de campanhas comunitárias já registradas. O alcance e a criatividade da mobilização brasileira se tornaram referência global dentro da rede GivingTuesday.

João Paulo Vergueiro, que atualmente é diretor regional do GivingTuesday para a América Latina e Caribe, reforça esse reconhecimento. “O Brasil é uma liderança regional e mundial no Dia de Doar, muito por parte desse processo de consolidação e crescimento da campanha aqui. Hoje o Dia de Doar é uma iniciativa que acontece quase sozinha, no sentido de que boa parte das pessoas que estão diretamente ligadas com as organizações já sabe que existe e decide se quer ou não quer participar. A gente tem a Argentina com um movimento muito bacana, a República Dominicana, Colômbia, o México querendo crescer. Mas o Brasil se destaca efetivamente, não só na América Latina, mas no mundo todo”.

Para Carolina Farias, o mais importante é que o Dia de Doar siga valorizando o ato de doar como expressão de confiança e vínculo com as organizações. “Eu acho que o meu papel foi de muito empenho, muita dedicação, muita entrega. E é isso que eu espero para os próximos anos. Que ele continue promovendo uma pauta que é tão difícil de dialogar”, diz. “O Brasil tem uma cultura de doar só quando ele vê uma emergência, uma calamidade muito clara. Para ter uma mudança de mentalidade, a gente precisa que isso seja pautado e precisa que isso seja central”.

Já Marcelo Estraviz, que acaba de se tornar líder do GivingTuesday na Espanha, país onde reside atualmente, propõe um olhar renovado sobre o protagonismo de quem doa. “Precisamos colocar ainda mais holofotes nos doadores e aproveitar o Dia de Doar para agradecê-los. Esse é um dia de celebração”. 

A partir de 2026, campanha será liderada pelo Movimento por uma Cultura de Doação

A partir de 2026, o Dia de Doar passará a ser coordenado pelo Movimento por uma Cultura de Doação (MCD). A ABCR seguirá como parceira estratégica, apoiando a articulação com o ecossistema da doação e contribuindo com sua experiência institucional. A mudança tem como objetivo conectar a campanha a outras ações do setor, mantendo o propósito original de incentivar a solidariedade e estimular a doação de pessoas físicas, empresas e organizações da sociedade civil.

Para saber mais sobre o Dia de Doar, acesse diadedoar.org.br

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